sábado, 24 de setembro de 2016

quinta marcha

partiu a borracha ressecada da porta
que batia
atrás de suas costas
quando
você deixou pra mim,
tudo pra trás,
um quadro metal chevrolet
de mais um
arranque.

domingo, 11 de setembro de 2016

quina-eu

eu nunca consegui entender
o escuro;
quando tudo
sempre foi luz
algo em mim fazia ponta
uma quina-eu

escondia lá
uma cidade qualquer
lá,
um sintoma

(fotofobia
de uma existência
sem arestas
aparadas.)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

feriado

é uma largada com tiro
o abraço de nossas línguas

o tiro que bate no peito
quebra as pernas
exorciza; 

é ninguém estar pronto 
na hora de sair,
acender com vela branca
o pano do molotov

quando a gente se beija
devia ser
feriado.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

emboscada

cruzo as pernas pra ver passar
mais uma noite

até preferia uma emboscada
sombria
cheia de olhos no escuro do meu pensamento
falha no peito
emboscado

cruzo as pernas pra ver passar mais uma noite
que passa
sem nenhum beijo
que parece amor.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

qualquer forma

de que adianta
tanto tempo lendo
pensando
sendo

nenhum gerúndio
trouxe
minha paz
como seu infinitivo
faz

sexta-feira, 22 de julho de 2016

dois olhos

pensar dói

sempre.

desde pequeno
fui aprendendo
a sorrir
não importa o que
estremeça.

diagnóstico

pereço
fora do abraço
da tua mão
na minha

padecimento abstrato
pra fora
do carinho.

sábado, 2 de julho de 2016

estrangeiro

não tem muito o que fazer

aqui,
na fronteira

um passo a frente é sempre mais
um passo atrás
e não sei mais
quem eu era

antes de saber andar

quinta-feira, 30 de junho de 2016

incenso

te fiz um chá outro dia
à distância

a mesa servida
o cigarro

quantas vidas se passam
até que vênus
entre
em
alinhamento?

sábado, 18 de junho de 2016

climatologia

chove mais que sempre
e o tempo não muda
um segundo de tormenta
em cada
gota
de
poema

quarta-feira, 27 de abril de 2016

vestida de negro

de tua mão nodosa
e quando ela encosta sem querer
nos meus dedos
atravessando a rua.
podia ser sobre qualquer coisa que existisse,
mas não podia.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

...

eu devia falar
de como sometimes
você, extratosférica,
me anti-gravitaciona.

me leva de carona
na mala.

do quanto eu odeio
todas as suas perguntas,
cada palavra-gota
engasga

eu odeio
seu jeito de dizer que me ama
esse mês inteiro sem trepar
essa mania, essa distância,
as fotos da tua ex,
nagazaki.

a sensação de ter esquecido algo;
qualquer fogo ligado
que vai estar frio
quando eu voltar.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

no quintal

no fio da faca
na mesa
todo brilho fino é
amolado em reflexo

troco o corte
por um pouco mais
de nós, 
um pouco mais de sorte.





Ouvir isto.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

difference

me dei conta
ontem, cozinhando tarde
enquanto amassava
sovava
sorvia
o pão,
que tudo fora da mesa
era um imenso
vão e desperdício
acho até
que 
nada fiz da vida
sem saber
que era tudo
que havia
pra ser feito.

sábado, 22 de agosto de 2015

passagem

só pra lembrar
que eu ainda penso
naquele dia
aquela manhã
o mundo dormia
e eu sentado ao lado daquele ofurô
tentando entender
a coragem de ir embora
a vontade de
ser
fotografado ali
e você só dormia
sem pensar em nada.