sexta-feira, 30 de maio de 2008

Nefelibata.

Flutuar através das horas,
Dias inexistentes, onde nada...
É concreto o suficiente pra me acordar.
E continuo seguindo sem pensar.
O céu é nada,
Viver é nada,
Crer é instantaneamente nada.
Sentir é tudo.
Ai! Quem me dera...
Quem era eu?
Que não sentia esse calor perfeito e maduro
Formado no encontro de dois mundos.
Flutuar através das horas,
Nada que me faça distrair
O foco principal, pensar em nada.
O nada. Perfeitamente concreto
Como o outro nada que se concretiza
Em dias inexistentes que correm pela vida.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Inércia... (diários...)

Na mesa ainda estão as coisas espalhadas depois de um dia duro. Chaves sem cadeado, canetas sem mãos, pilhas sem controles, cigarros sem bocas. Nada em seu lugar devido e tudo em seu lugar dividido. Aquele corpo cansado só precisava de um pouco de música, era tudo o que precisava para se levantar daquele sofá manchado e acender um cigarro, mas o controle não tinha pilha, ele não tinha pilha.
Andar era seu passatempo até o dia em que foi sutilmente abordado por uma vítima do sistema cruel e perdeu quase toda sua dignidade em algumas frases mal trocadas que levaram seus últimos trocados do mês. A valsa do desencontro e do desconcerto continuava a reger sua orquestra chamada de vida até aquele dia. O dia das coisas espalhadas.
Sentava no mesmo banco do parque todo dia e esperava os mesmos pombos encostarem o suficiente pra que não se sentisse tão só. Sim, era só, e era só ele quem via sua própria solidão. Doses cavalares de alguns estimulantes levavam sua pequena quase inexistência à um nível de suportabilidade menos agressivo, tudo que não podia ser feito se fez e aquilo que era possível nunca aconteceu.
Na mesa ainda se viam as coisas espalhadas depois de um dia comum, no sofá ainda era possível enxergar a pequena compleição física que se considerava humana após um dia duro, só ele via o impossível e impossível era compreender o porquê de ninguém mais ver. Mas nada é em vão.
Tudo se fez claro quando adentraram o pequeno cubículo onde se escondia durante as noites frias. Fácil demais perceber como o mundo dele funcionava, chaves sem cadeado, canetas sem mãos, pilhas sem controles, cigarros sem bocas, tudo em um desarranjo perfeito e notório. O latim em sua parede, o inglês de sua quase fala, o grande vácuo que o separava do resto do mundo.
Saiu de casa um dia como quem vai comprar cigarros e tomar um café, andou até não poder mais com os próprios pés, andou como quem nunca vai voltar. Deixou pra trás o latim, o inglês e o vácuo. A chave, a caneta, a pilha e o sofá. Levou consigo o cigarro. De fato nunca mais voltou.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Meu muro. (diários...)

O muro alto nos separa. Até hoje não sei quem foi o maldito que me mostrou sua concreta e perfeita moldura, mas o fato é que existe.
Durante muito tempo enfeitei o tal muro, besteiras que dizem mais que verdades, verdades que são como o nada e simplesmente se tornam besteiras, mas continuei a enfeitá-lo. Certo dia, ao acordar, percebi o muro se transformar em cerca, como aquelas dos filmes non sense americanos, e tudo começou. O mundo já não era o mesmo, já não podia pendurar minhas besteiras, talvez o peso das verdades tenha-o derrubado.
Saí a procura de outra casa, uma na qual eu pudesse contar novos enfeites de parede e vangloriar-me para meus visitantes. Não era tão grande, nem tão bela e urbana, mas era suficiente. Uma pequena e barroca casa amarelo-manga.
Fiz de mim meu muro, junto com meus cadernos, e coloquei neles as minhas verdades. Vangloriar-me? Não pude, já não vinha ninguém, o muro era alto demais, muito mais alto que meu Ego permitia. Então, numa manhã de quinta, coloquei abaixo toda minha existência e decidi tornar-me Eu, o sem enfeites.

diários...

Passei um dia na frente de um prédio antigo e me vi de encontro com uma imagem que me tirou de centro. Não entendi bem as escrituras em sua fronte, nem as tantas marcas em sua "casca", mas isso não era nada perto do que me estupefou. Era velho, bem castigado pelo vento da orla e pelas inúmeras tentativas de arrombamento que podem ter sido feitas, era tão lindo. Em sua calçada se via um mendigo com um cigarro na boca cantando musicas de seu tempo. Não sei ao certo por quanto tempo se encontrava assim, talvez pelo mesmo tempo que o prédio se mostrava como era. O que mais me intrigou foi sua porta principal totalmente lacrada por tijolo e cimento. Como desejei penetrar fundo em sua existência e descobrir sua intimidade.
O prédio falou comigo, o mendigo não...