quarta-feira, 7 de maio de 2008

Inércia... (diários...)

Na mesa ainda estão as coisas espalhadas depois de um dia duro. Chaves sem cadeado, canetas sem mãos, pilhas sem controles, cigarros sem bocas. Nada em seu lugar devido e tudo em seu lugar dividido. Aquele corpo cansado só precisava de um pouco de música, era tudo o que precisava para se levantar daquele sofá manchado e acender um cigarro, mas o controle não tinha pilha, ele não tinha pilha.
Andar era seu passatempo até o dia em que foi sutilmente abordado por uma vítima do sistema cruel e perdeu quase toda sua dignidade em algumas frases mal trocadas que levaram seus últimos trocados do mês. A valsa do desencontro e do desconcerto continuava a reger sua orquestra chamada de vida até aquele dia. O dia das coisas espalhadas.
Sentava no mesmo banco do parque todo dia e esperava os mesmos pombos encostarem o suficiente pra que não se sentisse tão só. Sim, era só, e era só ele quem via sua própria solidão. Doses cavalares de alguns estimulantes levavam sua pequena quase inexistência à um nível de suportabilidade menos agressivo, tudo que não podia ser feito se fez e aquilo que era possível nunca aconteceu.
Na mesa ainda se viam as coisas espalhadas depois de um dia comum, no sofá ainda era possível enxergar a pequena compleição física que se considerava humana após um dia duro, só ele via o impossível e impossível era compreender o porquê de ninguém mais ver. Mas nada é em vão.
Tudo se fez claro quando adentraram o pequeno cubículo onde se escondia durante as noites frias. Fácil demais perceber como o mundo dele funcionava, chaves sem cadeado, canetas sem mãos, pilhas sem controles, cigarros sem bocas, tudo em um desarranjo perfeito e notório. O latim em sua parede, o inglês de sua quase fala, o grande vácuo que o separava do resto do mundo.
Saiu de casa um dia como quem vai comprar cigarros e tomar um café, andou até não poder mais com os próprios pés, andou como quem nunca vai voltar. Deixou pra trás o latim, o inglês e o vácuo. A chave, a caneta, a pilha e o sofá. Levou consigo o cigarro. De fato nunca mais voltou.

2 comentários:

lalai disse...

meu deus! muito bom esse texto. aliás, adorei seus textos.
lembram os meus... sério. sem comparações qualitativas... identifiquei-me de verdade. que bom! ;D

parabéns. eu voltarei.

lalai disse...

tudo bem. vc é mais filosófico.