quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Fica bem

Sair sem olhar o relógio,
Andar na rua de barro que suja
A barra da calça e não demora
Pra atingir o chão que contagia os pés com movimento.
Dispara o peito na corrida dos minutos
Diminutos num dia cheio, trabalho e café,
Ainda tenho você na sala sentada
Com meu Tolstói arrebatador,
Mas é a rua que me leva, e eu vou
Saí sem olhar a hora, nem o dia e a chave no trinco,
Corri pra rua vendo o povo gritar mais uma tarde branca
Uma brancura que me fez correr e correr,
No meio de tantas outras cores.
A saudosa boca sedenta do sentir,
Horas que passam e fazem mais cinzas
Meu coração explode, eu tenho uma hora
De corrida no suor incandecente.
E vejo o sonho do outro lado da rua,
Dá-me os dedos pra que nada falte
Nada sobra da brancura, do trabalho ou do café.
Explode meu coração e tudo.
Fica bem...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

diminuta...

O agora passou passando bem devagarzinho
Se se faz tudo que quer, não estou sozinho
Deu no rádio e na TV
O mundo se cansou de solidão.
Sol de verão que queima a face
O protetor não é mais necessário
E como queria saber as belas artes
Das palavras soltas poder juntar
Pra contar ao povo todo do devagar do agora
Que passou a passar sem sol
Varreu o vale e a estrada
Do meu peito, nada ficou
Nas artes da solidão do vale e do necessário
Pra saber ver o sol só mais uma vez
No pé da estrada empoeirada.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Inconnu

- Realmente, eu não posso dar.
Não insista, por favor, já disse e repito.
Aquilo tudo, aqueles simples fatos,
Nada que o tempo não cure,
E se não curar, perdoa-me e toma um café...
Vai! Segue tua vida, segue que o caminho é longo,
E eu sou nada mais que um transeunte na tua estrada.
Insistir em um sonho é pura estupidez, tão tola.
Por deus, encarecidamente te peço que parta,
Vais daqui e leva contigo essa angustia facial.
Minhas mãos já tremem de te ver assim,
Preciso de minha consciência limpa.
Porque me olhas tão fundo?
Não posso dar o que não tenho dentro de mim,
Não adianta. Nem toda dor do mundo vai te ajudar.
- Olhe para mim, por favor.
- Sua voz é semelhante a algo que já ouvi...
Mas não tente me amolecer com sua maldita voz!
Seus olhos doces já tão opacos,
Nenhuma lagrima me mudará!
Faz-me chorar quando eu deveria rir,
Odeio-te por isso, vá embora daqui.
Vá embora e leve consigo meu desprezo,
Leva-o no bolso pra que um dia possa usá-lo.
Guarda esse espelho que eu já sumirei.
E olharás para o infinito sem ver nossa face.
Não me chame até que passemos o horizonte.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Lentes de Contacto (diários...)

Eis que um dia eu sentei na minha varanda, pude então ver o mar após dias em confinação ocular. Não era, meus olhos, um verdadeiro problema de minha incapacidade de transportar impulsos elétricos pelo nervo óptico, na verdade nem eu sei ao certo qual o problema. Sei que um dia acordei assim, lembrei de um maldito português que um dia escreveu algo do gênero, mas tudo não passou de um grande mal entendido. Pois que não estava realmente cego, só não queria enxergar as cores da vida como quase todos os outros. Sentado em meu quarto fiquei, quatro dias e quatro noites, quatro universos se mostraram e mais quatro se esconderam de minha provação, quando pude então entender: - Meus olhos eram pequenos pra ver. Então cansei-me de ver com os olhos e vaguei como cego pelo resto da vida, não que o fosse realmente, mas queria entender as coisas como são. O mundo me julgava cego, eu me sabia cego, os quatro universos que fugiram de mim e mais os quatro que vieram julgavam-me cego como uma porta. Nunca fui, porém, cego dos olhos, fui total e completamente, durante toda a vida de bom "enxergador", cego, surdo e mudo da alma.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008