terça-feira, 17 de novembro de 2009

Salamandrear

I

Peso contra costas que não aguenta
O sol que ferve quente o pulmão
Sou só remoto, um terremoto tão fraco,
Bati árido contra a secura do chão.
Nem cem mil metros de pedra tão formosa
Formam sombra que cubra minha tez
Com rigidez parti o solo estilhaçado
Sob o calor que o maldito dia fez.
E ainda faz quando a noite aproxima
Trazendo, macia, a cortina delicada
Sinto-me quente, volátil, explosivo,
A Salamandra que engole uma granada
E se derrete pelo caminho vazio
Que há tanto tempo sequer um pé passa
A mão toca o que o olho não alcança.
Sentimento que foi fogo, areia e fumaça.

sábado, 29 de agosto de 2009

Imagem

I -

Outros brasis virão, imersos em calma
Tudo é achismo e nada se forma,
Esta gigante montanha deforma
A cidade dentro de mim, alma.
Beiral das flores em meu jardim,
Dão noticia do mundo de lá,
Aqui é tudo ali e ali é quase cá
Desabrocho meu ser eu, eu assim
Sei daquilo que não se sabe
O que nunca apareceu na tv
Passo a passo vejo, e o que não se vê,
Os eus dentro d’eu, nunca se acabe.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Jardim suspenso

Já que nada mais sai dessa cabeça que já foi jardim,
Aplano-me no sofá sitiado da não consciência, vigiado...
Já não há sol na parede de minha sala.
O delírio corre nas veias como um insustentável rio,
Desemboca no peito que se abre sem sentir, já não sou eu.
Era eu, aquele que sentava em si próprio?
La vie est belle, quand je n’ai pas concience.
J'ai horreur de ca,
Já que nada mais resta nesse dia que já foi sem fim.
Pisar nas nuvens já foi sonho, infantil,
Hoje é tudo que restou, nuvem e ar,
Dentro do peito aberto, não há sombra nem sol.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tô na ponta

I

To na ponta. Sou a ponta da lança, eu sei.
Não adianta gritar ajuda ou ser a lança muda
Peito aberto e corpo fechado, olho que dói de olhar o horizonte,
Meu astigmatismo é só uma marca, a luz foge de mim
Continuo a olhar, só eu, na ponta do país, na porta do sol.
Sou um farol inútil e ofuscado, de meu ponto só ocular,
A lança que emudece, a alma que muda, só.
Sou eu na porta do sol sem um ponto de vista.



II

A cidade que vem por trás engole tudo,
Uma onda que leva a marola como suor de testa.
Sou um farol inútil. Virei poste de rua.
Continuo a olhar o mar igual ao de antes, que mudou?
Sou o ponto cego da visão perfeita de alguém,
Que é convencido de sua não existência
É, eu to na ponta, sei, sou a ponta do país.
Sou a lança que não alcança o destino certo.



III

Mais um dia que passa, menos uma conquista.
Aqui do alto nada é igual, do alto do farol.
Nem a musica é a mesma, uma sensação de mal estar.
Me perdi na linha de pensamento, sou outro agora
Outro diferente pela altura e pelo momento, sou alheio.
Uma fagulha acende-se no horizonte. Lembro minha pequenez.
Assusto, encolho, ainda sou alto demais, fácil de atingir.
É só menos uma conquista, a onda traz , onda leva.



IV

Não é senão só solução, eu só, badulaque, batuque e atabaque.
É do ser sem ser só um, sendo mil postes nós todos um só.
Simulacro dos sinais de fim, a luz que fugiu de mim, singular.
Na dobra da esquina reta que vejo ao horizonte aquém eu.
To na ponta, disseram, olho pluralizado, um só ponto de vista,
Sabe Deus o que será então de mim, do eu e do farol,
Desejos de beleza, tudo em vão. O mar aquieta ao som do violão.
Sentei nós todos em via de contramão...



V

Para qual onda devo, eu, olhar?
Parado em frente ao mar, sentado em minha própria luz,
Senti-me só, outra vez naquele ponto de vista que era só ocular.
Debrucei-me sobre o que já foi um dia uma imagem de mim.
Enfiaram-me fibras óticas, meu brilho hoje é só enganação,
Catarse de um drama que se vive todo dia,
Penso que nada mais condensará tal agonia.
Tudo tem um custo, ser farol, mas não ser guia...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sei que parece...

O mais que já se esconde, em segundos de cinza e fumaça,
Os quais que nao me deixam sossegar na tranquilidade do sofá,
Olhei o dia inteiro através da vidraça, na esperança única de um sorriso.
E ele já se esconde, me foje à visão turva, me curva.
Sei do escândalo e do devaneio, nada é em vão,
Alegria em pó, instantânea, sem cheiro nem cor...
Olhei o dia inteiro por entre vidraça, na esperança de um único sorriso.
Ele se dobra, esquiva na curva da estrada
Onde o vão é quase mais que nada.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pós

Mergulhei laranja no preto reluzente
Brilhei neblinado como manhã no campo
Desfiz-me em gotas já antes formadas fumaça
Caí no fundo opaco de um copo translúcido.
Do ontem nada fiz que não correr,
O tempo foge e eu vou atrás,
Ganho um, dois ou dez minutos,
Nada fiz do hoje, deixei escapar.
Amanhã talvez eu consiga.
O tictaquear dos ponteiros pulsa mais alto,
Sinto-me branco, redondo, engavetado,
Sublimando pelos segundos enquanto rolo
Nas roupas velhas de alguém perfeito.
Sim, pulei do monte,
Refiz-me ar ao bater em água,
Sem passos no chão, corri como um velhote,
Esbarrei no muro que só eu não vi,
Não, o tempo não...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Releitura

Explodir em palavras tantas
Significar-me, sentir todas
Descobrir as que me constroem e medir seu peso
Seus ensejos e suas caligrafias,
Signos, silêncios dos escritos.
Correm todas em meu sangue como num livro,
Sentir-me-ei em poucos segundos
Velho e amarelado por nunca ter-me lido.
Abro-me com o cuidado dum papiro,
Risco a toa tudo que penso em guardar.
Apago tudo pela noite, e amanheço em branco,
Minha capa diz: conheça-me como nunca fiz.