segunda-feira, 31 de maio de 2010

Cabeceira

sobe fagueira
dançando no escuro
pequena e fina
dobrando esquina
do pensar sem muro
luz de velas
sapateia leve
fagulhas de ar
borbulhas de mim
desfazem o véu
mostrando a tez
e por um acaso
quase um talvez
não sinto frio
nem chama
subo fagueiro
abraçando o claro
óbvio incontestável
escrevo nas paredes
segredos em nossa língua
que são pra você tocar
são pra você só ler
só pra você
passar
e lembrar de mim.

domingo, 30 de maio de 2010

as velas e eu

contrai retina
a luz que bate forte
com um pouco de sorte
meu olho fascina
um tango sem pesar
samba sem tristeza
então toda beleza
me ponho a enxergar
dança de velas bailando
silhueta que será janela
cheiro de manhã lembra ela
numa poesia vem chegando
pra lembrar
esquecer
me deitar
e acordar
sorrindo

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Flowers Season

entrelaço
nossas pernas
um só jazz
um só samba
e o que era descompasso
é batida fraca
às duas da manhã
arranco do relógio
o atraso

vejo então
o amanhã

quarta-feira, 26 de maio de 2010

1805

Entre pés os ladrilhos
enquadram sem molduras
sorrisos e segredos
carinhos matam os medos
ladrilhos e torturas
passam linhas e brilhos

Entre segundos sem fim
um pensamento calado
nas noites acumula sombra
o canto do quarto assombra
quando não a vejo ao lado
mas só dentro de mim

aqui guardo o melhor
envio num envelope
busca a mão a galope
do corpo o melhor toque
os dedos a escrever
o mais fácil a perceber
é soma de dois contados

Auroral Light

Ele

Caiu o último grão
e como óleo na mão
espalha meu toque
torna rosa o lençol
vítima de tanto calor
se rende ao cair da noite
num quarto sem lua
sem pensar meu abraço
meu sorrir e minha pele
minha sede e meu devaneio
confundem com teus cabelos
e todo o resto some

até o que temia
no fundo morre
e alimenta
minha vontade e minha fome
fome com outro nome
o agora um ensaio
te olho de soslaio
me perco em teu dormir



Ela

Clareia
fina linha
teia
armadilha
presa em libertação
fuga exposta
em lençóis de algodão
e mesa posta

segunda-feira, 17 de maio de 2010

17 de maio

Nasce o dia que segue
treme a mão que espera
um pouco de candura
e como quem lida
com a vela do bolo
brigo com a chama
por entre morangos
e chocolate pintado
apago com sopro
um sorriso rouco
nasci no dia errado
meu presente é o amanhã

domingo, 16 de maio de 2010

Sopro

no dia em que ouvi
um sopro Zéfiro dizer
tinha transformado em vento
e luz que cobre campos
tremi de frio e medo
e sussurrei um segredo
veloz e alado chega
no alto do céu e despeja
que nesse dia eu fiz
o que nunca fizera
e sorri
abri as portas e janelas
pra você entrar
só você

sábado, 15 de maio de 2010

semeador

A nuvem desce como cobertor
e sobre a casa grande pousa leve
molha, encharca, inunda meu jardim
retoques das cores que não haviam em mim
em cada gota sua que em breve
tocar a minha face com todo calor

sou hoje o templo onde seu sorriso se esconde
fascínio e areia de ampulheta

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Dança

só quando é noite
na tinta de minha pele
dança carícia morna
e o desenho se torna
nosso palco de Calíope
com sua voz em açoite

justo como quem sente
acordo a perceber
enganador de sentidos
ferventes e confundidos
acalenta o corpo um lençol

no peito abrasado
a certeza que era seu
o toque que é só meu
insônia do olhar calado

Sorrir de um mesmo modo
uma imagem em aquarela
aquiesce meu quarto escuro
e meus olhos que são dela
dança dos sonhos
sacode a alma

sapatilhas e um segredo

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ela e seu vestido lilás

pérola em colar
necessário ao pescoço
antes só seu
sutilmente por trás
decoro sua nuca
com um beijo

teu cheiro me deita
em imagens e tato
que na meia-luz
só vejo em ti

Só dela

Perfeita convergência
de dois corpos
em um só verso
delicado

domingo, 9 de maio de 2010

Dentro dos meus olhos

a todo momento
meu espelho insinua
detalhes amaciados
travesseiros embolados
uma silhueta nua
transborda minha cama
e como quem ama
adormeço tranqüilo

sexta-feira, 7 de maio de 2010

fogo sem artifício

toca no vazio
deitado na areia
Ampulheta corre depressa
a agonia que não cessa
Fogo correndo na veia
acende meu pavio

o toque na pele
sem toque

quarta-feira, 5 de maio de 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

Topo do mundo

enquanto o céu separa os limites
da compreensão e do querer bem
alcanço a montanha e o cume
visto gotas de seu perfume
deito no alto mais alto que vejo
despido do mundo
mergulho bem fundo
onde não há saída
sublimo desejo

Pergunta (dentro da garrafa)

Quando sobe a noite
e a escuridão abraça
quebrando ventos e vidraça
Quebra-mar e açoite
nas vagas o barco desce
e sacode
tempestade já não pode
naufragar em mim
aquilo que não ancora

envio numa garrafa
a pergunta que há
ou não há
resposta

segunda-feira, 3 de maio de 2010

la pluie de lui

a poesia sorri da vida
constrói sua casa em mim
cada tijolo por segundo
refaz todo o meu mundo
e dorme em sua cama.

ao lado da plenitude
vem seu cheiro florido
doce, denso, perfeito
calor

la pluie d'elle

dança a chuva sobre minha janela
Sobre meu teto, minhas vistas
toda tempestade bem quieta
faz silêncio

danço com a chuva pra chover
meu candeeiro ilumina o salão
ventamos pra sorte
cortamos Distância
fugimos da morte
e o meu corpo no seu passo
se faz maior que o mundo