terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Gold in the Air of Summer

Janela entreaberta e meu radinho de pilha que não para de tocar baixinho, me movimento na cama buscando a posição ideal, na cabeceira pousa um óculos antigo, um copo meio bebido, um livro meio lido. Observo por um instante, entre tantos meios eu não sei por uma fração de segundo onde me encaixo, acabo por me aconchegar na cama, meio desconcertado de mim, mas ainda assim me dou algum conforto. Guardo a mania de deitar só em uma metade da cama, sei que durmo só, inventei desculpas para justificar a solidão ouvindo Miles Davis a noite toda, a vida toda, até que deito finalmente convencido de uma razão minha que custou à entrar em minha cabeça, minha voz não inspira mais a mesma confiança que antigamente, demoro à me render pra mim, deito só. No fim das contas, sendo mais justo com a cronologia das coisas diria que seria no meio da noite, mas de qualquer forma, no fim das contas eu ainda sonho. Talvez eu precisasse de mais desculpas pra justificar meus sonhos, aquele sobre ela, uma casa pequena e simples, gostosa de viver e ser alguém de bem, criar um cachorro, juntar uns amigos, cozinhar no domingo e poder sorrir pra o mundo de uma varanda que divido com os chinelos dela que repousam perto da mureta. É, eu poderia pensar em motivos e sentidos. Sentidos estes que fogem dos dedos e caem diretamente naquele forninho à lenha, pulam do peito e aterrissam na cama de chão que ela decorou de rabiscos e fotos, voam das pupilas e tocam uma face inexplicável, quase impossível. Nem acordar é suficiente. Afinal, não durmo só. Sou sempre eu e meus motivos, tenham nomes ou não, Ela tem nome.

2 comentários:

lidianemotha disse...

"Talvez eu exija um pouco demais do mundo ou de mim mesma; ou talvez eu não tenha que justificar minha solidão com exigências." Verônica H.

Doses de mim disse...

ler isso foi meio nostálgico, tentei falar com vc quando li, mas n encontrei os meios comunicativos. Enfim...eu achei que o poeta que eu conheci tinha morrido, mas ele está ai dizendo adeus em metáforas cruas, porém confusas para quem conhece seu tom autobiográfico. Espero que o sol esteja sempre com você, de verdade. E gostaria que a amizade, ao menos a poética, não se perdesse junto a geografia ingrata.

abraço!