quarta-feira, 30 de novembro de 2011

completude

salva
tudo o que conseguir
e se mesmo assim
eu me sentir metade
ou dois terços
deixa
já não há o que salvar
pega tudo o que não presta
e o que resta
atira com vontade pela janela
bem aqui do alto
onde não existo
de onde não resisto ao salto
e o voo seja pleno
inteiro

http://www.youtube.com/watch?v=XerlSEj_D7Y

apontamento

Como o bonde que deu um tranco na cintura da mãe de família, e de repente a incompetência pra viver assusta-a, sinto-me o cego que masca chicletes displicentemente na relação de si consigo mesmo, sem saber olhar pra fora, sem poder libertar-se da condição eterna de mascador, condição eterna dionisíaca, o Sol não faz mais tanta diferença, estou no meu jardim agora.

Meu tranco tem nome. Muito mais forte que uma montanha, atrapalha o andamento do meu bonde, uma vez retilíneo, no qual tive tanto medo de pular em movimento e abraçar o incerto perdido no meio de uma indefinição não só espacial, mas temporal. Sinto-me realmente convidado ao não envelhecimento, abandonei as razões, esqueci, na verdade, meus motivos, dói como afogamento, silencioso e sufocante em meio as bolhas tão bonitas, adornadoras de um auto-assassinato quase flutuante. E não me entenda mal, amor, eu amo te amar. Afogo-me cheio de prazer nesse mar imenso que, de certa forma, enchemos juntos na fronteira de tudo que construímos. Desastroso é ver que o mar ainda nos separa, nos abisma, nos difere.

Nunca em minha vida pensei escrever tão diretamente pra ti, mas ultimamente tem doído tanto sua falta que fica impossível ser indiferente, tentei ser indiferente a tudo isso uma vez. Me custou a paz e tantos outros floreios internos. Flutue comigo, “há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua”. Há sempre dentro de mim a esperança de poder te amar inteiramente, do nosso jeito, e poder deitar naquele sofá buarquiano no calor do mundo todo a desfrutar de uma cervejinha gelada seguida de muitos beijos.

Tantos beijos quanto puder te dar.

Sei que tudo nosso é liberto e cheio de curiosidade do mundo inteiro, mas meu coração é seu.


(acho que mesmo sem saber lidar, ainda sei falar de amor)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Saída

trinca na pele o frio
(até ele morre de medo
de fugir de pele em pele)
vem se arrepiar em mim
em meus poros
tão meus poros
(eu que morro de medo
e só morro de medo)
ultimamente a vaidade impera,
ela e seus casacos
bem quentinhos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

alento

Vem andorinha,
pousa teu descanso em mim,
repousa,
e te mostro
meu ninho, meu verão
enquanto dura a estação;
enquanto duro.

domingo, 20 de novembro de 2011

veredas

e a vontade imensa
incontrolável
de sumir daqui, mudar de vida, passar aperto onde ninguém veja e mesmo assim sentir as rédeas em minhas mãos... hoje é sem poesia, sem estrutura, de qualquer forma ou sem forma. o que tem de ser dito não precisa de poesia, muito menos de mim.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

sereno

minunciosamente espalho sobre a mesa
não mais canetas
tão pouco papéis
te guardo em mim
por medo
da desordem
que há
dentro
fora
em minha volta.
deixo que passem
os minutos
que passem encabrestados para longe
fora,
lá fora haveria de ser sereno
o que cai em harmonia
com a queda,
mas não enxergo,
dentro
transpareço
serenamente
como quem cai do céu
pra ver de perto
o chão

sábado, 12 de novembro de 2011

acaso

Hoje o amor fugiu de mim
amor maltratado
prometido
por vezes tão escondido
as vezes tão encontrado
por páginas,
lápis
adesivos e bombons
embalagens e camisetas cheias de cheiro
de perfume.
apolíneo trajeto de escape
rasgou verticalmente
o horizonte
já não há no céu meu descanso
repouso nas pedras que pisei
com o mais puro e impensado
descaso

domingo, 6 de novembro de 2011

brisadez

vem,
vem no desalinho
de um tropeço
sinuoso
de ladeira

e se joga
no meu mundo

percebe,
descabem aqui
infinitudes
tudo
tudo
tudo termina

só pelo prazer do recomeço.

sábado, 5 de novembro de 2011

por um dia, qualquer tarde

Eternesço inimportâncias
na esperança de captar
em qualquer outro canto
a dobragem umbigal do mar
se engolindo
desgalfinhando
o estilhaçar de grãos
que a areia não lembra
ter perdido
no tempo

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

que seja

que todo minuto
que qualquer vento
tropeço desastrado
beijo roubado
falta de luz
grito rouco desistente
abraço pouco resistente
carinho
cobertor de retalho
que tudo que se quer
e pode querer ter
ser
aprender ou distrair
(mesmo que dê briga,
sempre dá,
me distraio facilmente)
tudo que queiras
jardins
flores do nosso quintal
quadros
chão e esteiras

que tudo seja nosso

e que falte sempre a luz
pra que sobre noite

me distraio sempre
e vou sempre distrair
nos seus detalhes.



http://www.youtube.com/watch?v=z9lrVZdaluk - pra ouvir do seu lado.