quarta-feira, 30 de novembro de 2011

apontamento

Como o bonde que deu um tranco na cintura da mãe de família, e de repente a incompetência pra viver assusta-a, sinto-me o cego que masca chicletes displicentemente na relação de si consigo mesmo, sem saber olhar pra fora, sem poder libertar-se da condição eterna de mascador, condição eterna dionisíaca, o Sol não faz mais tanta diferença, estou no meu jardim agora.

Meu tranco tem nome. Muito mais forte que uma montanha, atrapalha o andamento do meu bonde, uma vez retilíneo, no qual tive tanto medo de pular em movimento e abraçar o incerto perdido no meio de uma indefinição não só espacial, mas temporal. Sinto-me realmente convidado ao não envelhecimento, abandonei as razões, esqueci, na verdade, meus motivos, dói como afogamento, silencioso e sufocante em meio as bolhas tão bonitas, adornadoras de um auto-assassinato quase flutuante. E não me entenda mal, amor, eu amo te amar. Afogo-me cheio de prazer nesse mar imenso que, de certa forma, enchemos juntos na fronteira de tudo que construímos. Desastroso é ver que o mar ainda nos separa, nos abisma, nos difere.

Nunca em minha vida pensei escrever tão diretamente pra ti, mas ultimamente tem doído tanto sua falta que fica impossível ser indiferente, tentei ser indiferente a tudo isso uma vez. Me custou a paz e tantos outros floreios internos. Flutue comigo, “há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua”. Há sempre dentro de mim a esperança de poder te amar inteiramente, do nosso jeito, e poder deitar naquele sofá buarquiano no calor do mundo todo a desfrutar de uma cervejinha gelada seguida de muitos beijos.

Tantos beijos quanto puder te dar.

Sei que tudo nosso é liberto e cheio de curiosidade do mundo inteiro, mas meu coração é seu.


(acho que mesmo sem saber lidar, ainda sei falar de amor)

2 comentários:

Be Lins disse...

Aprecio demais a intensidade metafórica do amor em palavras assim rasgadas, como as suas, que voam, sobem e descem e criam para nosso deleite, cenas, imagens, possibilidades,
enfim, ficou muito lindo, em uma poesia, eu vi um filme inteiro.

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Sobre Pessoa, e os cacos da vida, não conhecia aquele poema embora já tenha lido muito Fernando Pessoa. Interessante como a linguagem daquele poema é atual, é como se tivesse sido escrito hoje, por lagum de nós. As angústias serão sempre as mesmas?

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E a poesia segue
e hoje houve chuva. Linda, noturna, retilínea, cadenciada, uma chuva com ares de convite.

Boa Noite!

Ellen Joyce disse...

A metáfora dos chicletes de cego, floreios internos. Eu adoro um vocativo. Adoro muita coisa aqui!