domingo, 30 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Mãe maior II

meu quarto faz dias, e faz dias em mim que eu espero passar o mal estar, ele faz dias, conta minutos dentro de mim, brinca de relógio e me deixa cedendo areias por dentro, querendo, fazendo segundos, faz dias que estou estando, fazendo sentidos segundos passarem, nunca mais darei corda no relógio, nunca mais. tua memória tranca segredos, carrega os castiçais iluminadores dos salões de dança que decoram seu olhar perdido, sinto saudade de seus passos, instabilidade de humor, unhas sem pintar. te vejo de longe lavando pias de pratos sujos onde se escondem vergonhas e a vontade sua de ser de novo graciosa, de força bruta, potência motora, move mundos e tamanhos. teus olhos azuis ainda me fitam, eu queria mesmo que nunca esquecesse que te amo, vó; minha barba, minha pele riscada, meus olhos castanhos; eu aindasempre te amo.

Enfim

"Eu tenho dois nomes, três futuros, um beija-flor."
http://saulosmoreira.blogspot.com.br/2012/12/agua-de-colonia.html


todo cuidado é pouco quando se pensa em estancar passado, aparar arestas das coisas mal feitas, dos estragos de mãos descuidadas, mãos sem jeito pra vida, pra segurar taças e cortar frutas, pra alisar cabelos e fazer chás, mãos de apoio, suporte, carinho. carinhos e amores fazem o tempo tropeçar. costurar pensamentos é deveras difícil, cozinhar pensamentos é delicioso.
fica acertado que de hoje em diante eu cozinho, consertos de casa por minha conta, mãos de apoio, carinhos e juro que acompanho filmes e séries ruins tentando não dormir, faço mercado e sempre que der passo na farmácia, trago de volta a vontade de ter filhos e de, quem sabe, criar um cachorro; faço quantos chás forem possíveis, Caetano e de vez em quando Chico, Malu, tanto faz. Leveza. fica acertado que está tudo certo agora e ano que vem vamos pro México, fica acertado... leveza.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mudo

que há no jasmim
ou hortelã
faz tão bonito
tão cheiroso
tempero perfumado
do meio do peito cozido
em fogo brando
dores brandas
cheiro de mesa posta
antes do tempo
jasmim da janela
me olha curioso
eu, batendo panelas
gritando remédios
tentando um chá de ampulheta
só queria cozinhar pra ti
a vida toda,
nunca mais fazer a barba
crer no destino feito sábado
sopa, cominho, pimenta
ouvir madeleine, nao ouvir
seus passos indo
da cozinha pra lá
não há sentido
destemporado
tempero flores
dos ladrilhos em calma
e mornidão

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

perdido pelos ponteiros
rochedos, mariposas
alturas, despedaços
mar já não salva
onda quebrada
não atravessa os dias

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

corpo

mexo na boca
devagar
finjo o toque seu
devagar, não me apresso em abrir olhos
não há pressa
na minha barba
na minha pele
não há
nada em mim
que não espere

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

limão e mel

do delicado fazer do chá
enquanto vó fala da família
antiga
água ferve e esquenta a vida
saias, quadros e a radiola
meu bisavô e um trolley
acertam o minuto do limão
exato momento de derramar o mel
derreter sabores na xícara
aquecer o dia
como quando olho a janela
o sol cortinando em minha vista
balança com o vento
sobre o mundo

terça-feira, 27 de novembro de 2012

thiê

feito passarinho
numa manhã bem bonita
a beleza lá em baixo
do alto do ninho
vi a beleza da queda
e o bater de asas
minhas asas anti-gravidade
ante tudo que brilha, tudo reluz
a beleza lá em baixo
foi testemunha
de que nao sei
voar

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

da entrega

da entrega
dos grossos traços
do quase choro
mãos e cabelos
faca pulsante na jugular
artista é na vida
aquele que grita
no silêncio dos sentidos
desnudos
quando tudo é violino
piano e vinho traficado
má depilação
da intolerância do mundo
da Iugoslávia
meus amigos assassinados
e da vontade de ser mais
dono de minhas vontades
de suas vontades
nunca mais me vestir
das razões de um olhar
ser queer
mesmo que sem querer
sem inscrições, sem rabo de cavalo nem colar de pérolas

sábado, 17 de novembro de 2012

Emy

aceso
sinto falta da noite
sóbria
sinto falta da noite
falta sempre um pouco mais
de noite
acesos
meus sentidos apóiam
o universo em seus ombros
o universo
aceso
na noite
falta
sempre um pouco mais de
universo

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Excertos de viagem

(ainda nao corrigido, sem pontuacao)


I-

das tuas pracas cheias
dos amores perdidos
tuas gentes
meio-fio, meio lugar
pedacos de chuva e calor
das formas que eu achei
em meio a tantas outras
sorrisos quentes, cabelos
alto-falantes e emergencias
flores brutas
amores cegos
e de quase toda sacada portuguesa
que pude tocar com meus olhos
meus aneis de caveira
minha cozinha muda

II-

guardei nos olhos o suor que te escorria, suave, e pedi que a pele desejasse saber o sabor de tuas maos, teus oculos dourados, tuas imagens de pessoa, telefones antigos e a varanda da fazenda

III-

do sorriso desfeito imediato
da aspereza no olhar
a simpatia
e a falta de beijos
das promessas que o santo nunca cobrou
mentiras esquecidas
minha surdez
o que nao ouvi, nem me importei
falta habilidade no andar
as pequenas imensidoes
das vontades e explicacoes
teus lugares e a falta de espaco
tua cor
ceu calor
da saudade de duda
de Saulo, de Be
dos desencontros
nos quais me acho
onde sorrio de canto
por ser meu unico jeito de sorrir

sábado, 10 de novembro de 2012

Manáos

o céu ameaça despencar. olho ininterruptamente o rastro de luz que escapa da porta, tua sombra nao cruza meus olhos, a anunciação de sua presença escapa às minhas unhas. tempestade ou não, tempestade brinca no calor, esquentam em mim todos os sentidos, escapa às minhas unhas teu cabelo imenso, as iluminações espantosas no céu, ameaça desabar... sinto uma estranha vontade de cozinhar pra ti, misturar teu cheiro nos meus temperos, brincar na tua boca, te cuidar por um dia que fosse, fingir que te amo, pretender um futuro, desabar quando o céu cair e virar rio que corre pra longe de manhã...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cáceres y Cayetano

sufocam as varandas ensolaradas das ruínas delicadas em que pusestes teus olhos, e no fim do dia o próprio sol vem descansar. há de passar. demônios de minhas vontades, geniosos cacos de minha concretude espalhada pelos tapetes, acima de mim só o Equador e vapores. teus cabelos brincam nos meus suspiros. balas! e a vida fica muito mais doce quando teus cabelos brincam nos meus pelos, cárceres, fronteiras das nossas lonjuras. dizes em voz alta da alma feminina que em mim habita, alma de gente, replico, gente que é antes de tudo gente e precisa um tanto mais de gente e de seus cabelos, seu sorriso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Floating

ser abstrato
é que dói tanto
ser
barbudinho, assim,
dói em mim
que o mundo seja
tão concreto
tão perdido
querendo que eu perca
meu trato
assim que eu achei
ser melhor pra mim
ou o mundo
dói em mim
ou dói tanto no mundo
meio cego
meio velho
bem no meio
de mim, dói um tanto assim
ser abstrato
só sei ser
"só sei viver mesmo
se for no samba"
sei ser
assim, barbudinho
doce
pra vida ficar doce
pro mundo nao coalhar
me diz, tuyo,
que eu faço?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Feriado

entre, sente, pente e cabeceira
já fui thiê, thiago, amor,
thi, careca, tatuado, vagabundo
viado, bonitinho ou meu bem,
o mascarado da Mayra
o doce do Saulo
o esquecido de meus pais
caneta, papel, xerox e conjuntivite
chá
chá de cidreira pra o sol descer mansinho
pra Saulo lembrar de mim no verão,
pra duda me amar
preu amar duda cada dia mais
e todo dia ser dia de thiê
pão quente e suco
curry, azeite, alecrim e pimenta
Saulo, seu sorriso parece frô pequena
frô e cuidado
nada desimporta
despedaços, vidros
criados feito gente
fogo de Nero adentro
acresce a vontade de brilhar
incêndio imenso
na pele pista de dança
teus dedos sapateiam
entre cacos e os perigos
de corte

é corte estendida
sem platéia
assim, sem corte
caço cacos e ignoro

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Praia

Camelo e Chico me ajudam
a desfazer o nó de teus dedos
pelo teu corpo
fiz dele meu discurso,
meu texto,
roubastes o sol com a mão
e sabe o quanto me faz falta
a luz
me benzo dentro d'água
pra Iemanjá me beijar
e espero na beira da praia
tuas faltas de caminho
virarem rio

tatuei um leme em teu nome
em tua memória
vou te girar dentro de mim
te arrancar
ou me ancoro
nas tuas ancas
pra naufragar
meus braços teus
teus quartos meus
na areia nossa
que o vento leva

espuma
sem rumo

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

o burburinho aceso
da praça Quincas Berro D'água
apago no chorinho
e nas tatuagens
a conta pendurada
o cumprimento do preto velho que passa
ladrilhos de são Jorge revestem a casa de Amado
a casa do meu pensamento
chove no Pelô,
santa Luzia que me acuda
nos meus olhos tristes
de ouvir Caetano
pra descer a ladeira da montanha
aos trancos e barrancos
arranco do ar os ventos
pra por nos pés e voar
vela solta de barco errante
eu devia ter ouvido vó
e ter virado caxeiro viajante
saudade ia ser o tempo todo
pedaço que eu guardo no pescoço
ao invés de ter virado pescador
e deixado a saudade ser inteiro
um mar tremido
e estampido
nos meus olhos tristes de ouvir Caetano
camisa rasgada e Caetano
sem um puto no bolso
Santa Luzia que me acuda...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

chega uma idade quando nada mais é ridículo,
falarei com estranhos
gritarei em publico
boné e camisa social
tênis sem meia, bigode mal feito
chave de fenda sempre na mão,
pra misturar a cor de minhas roupas que não combinarão,
livros roubados, o rabo de saia onde quase infartarei
quando chegar o tempo de ser ridiculamente alegre e doente,
sentar na calçada e ver a vida que resta
andar sem mim
eu que nunca andei muito bem sozinho
vou querer a sombra de uma amendoeira
lá no parque da boa vista
nas mesinhas de dominó
quando o tempo for chegando,

ainda assim viver o hoje
na fortíssima sensação
de não saber
onde estou indo...

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

feira da ladra

o cheiro de manga espada
e no romper doce-amargo da fina casca da jabuticaba
negra, aparece a noite doce
e suas compotas, ou licor.
teus olhos cheios
balaio de frutas verdes
cheios de Deus e algo mais que há
perdidos no jardim,
a falta de fé.
a banca de fruta
pega na dor
na dor que as vezes nem corpo tem
e areia que na pêra faz da minha boca um oceano
incensa pra longe as nuvens
afago cores
afano romãs e corpos.
o sol ignora a banca
e queima a sombra
os seres que vivem nela.
maçãs mordidas de Hilda,
masco os pedaços azedinhos
de alho em mãos e espada de são Jorge
mastigo quebrantos
vendo frutas
pois o dia fica belo
quando não penso
é dia de sol que queima as sombras
de dentro dos meus olhos
na feira de são Joaquim
mercado central
de dentro
do centro
de frutas

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

(rascunho)

O que devia ser das almofadas mal-arrumadas
Do mais que perfeito do subjuntivo
Das chaves
Das portas
Do latim que eu insisto em não aprender
Descontos em cupons perdidos
Discuto sem voz, sem medo, sem roupa
Os tap-tap na hora certa, tic-tac e dum-dum no relógio
A roupa preta e o sorriso suado, sorriso suado
O que deveria ser de mim
O que cinqüenta timbres não me ensinaram a enxergar
Perdi os óculos, perdi de vista...
Já fui pessoa, li Manoel e Adélia
Fui querido, possuído, ensolarido
Passarinho deveria ser eu
Incapaz
Deveria ficar assim sempre
Deverendo, passarido, espaçado
Tão cansado



(rascunho)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sopa

Amanheci
Escrevendo gravetos
De chão,
Galhos de sol riscando
O que há
E aqui em baixo
Bem cedo
Floresceram os cravos
E o jardim de hortênsias
De gota em gota
Pingou manhãs
Pra cima
Pros lados
Pra dentro de casa

Teu cheiro é de cozimento morno
Escrevinhando os passos meus pela cozinha.
Banhei teus sonhos em lençol manso
Pra que dormir
Seja sempre
Um retornar

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Mãe maior

azuleza dos teus olhos confusos e a feroz briga contra a loucura. isso não será belo ou sutil, quisera que fosse somente desabafo, mas ainda engasgo com sua tristeza, ainda sinto em meu sangue, as ranhuras de tua pele em ruína, castelo sitiado pelo tempo que hoje me rasga em pena as torres caídas. Tu és um monumento de força e imensidão, a memória que nunca há de se perder, cordas de amarração dos navios do meu porto, alquimista mística dos segredos de minha infância, seus cheiros e sua herança, mesmo que azulem em mim os olhos que são teus hoje, já não reconheça fotos, fatos, filhos; minha rosa dos ventos, a rosa em meu nome e em meu jardim, hoje eu escrevo porque não agüentaria te dizer dos teus passos que olho temeroso, te escrevo pois não lembraria amanha uma palavra sequer, porque tenho medo de um dia esquecer, mas acima de tudo porque seus olhos azuis que me fitaram tristes e confusos hoje me doem mais que qualquer perda que eu poderia ter. Eu te amo, vó, não se esquece nunca disso.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Neruda, me salve!

eu só me calo
quanto te leio
palavra quer tomar vida e mata
vinho e tequila
manga doce, manga cheirosa
meia luz das mágoas que brincam nas cortinas
máscaras nas paredes
Almodóvar
meu silêncio nunca foi tão barato

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Gaivotar

faz sol no dia
rebenta o porto
corpo
barco de pesca e esquecimento
ancoraria todos os meus filhos em sua praia, morena
dava pé, mas me afoguei
não leva a mal
leva onda, porque não havia de levar
meu coração?
eu dava pé, mas o mar é bom
é colo de amante
barco solto velejante
em par
em paz

certas coisas o mar leva e traz quando quer
traz o mar
atrás do viradouro
tudo é lembrança e remo forte
estopa que nem a morte
apaga
arranca do couro, o corte
de cordas que o porto rebenta
a rede corrida que o tempo tenta
pescar as coisas só de passagem

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

passagem (...)

dias em que a melhor hora é o banho quente, massagem líquida, pano seco sobre antigas capas de livro, tão pós-moderno, e tudo que eu pensei em te escrever vai sendo lavado por mornidão e Tom Jobim. Era pra ser tudo um grande café da manhã: quentinhos cuscuz e broa e a vida à toa e o sol subindo - à mesa a solta impressão, fotografias, quadros. Dali derrete o relógio de meu pulso e a antiga janela d'onde eu sempre olhei as tempestades se choveu em minha frente. "restam as memórias de meus amigos mortos", sobra sempre um pouco mais de sentimentalismo, falta altura às coisas que dia a dia vão se tornando baixas, menores, perdidas aqui dentro e quando a vida não é suficientemente inteira estala o susto de ter pulado tantas refeições, deixado tantas vezes de amar os amigos, amado em silêncio, prendido os cachorros num dia de chuva pra que não se molhassem, mesmo sabendo que eles adoram, (deixado de amar) e fez-se mofo nos discos sem ter feito nada por preguiça, por sempre deixar pra amanhã tudo o que se tem plena condição de fazer hoje, procrastinar até a procrastinação, amansar tudo com café olhando a janela, com a fé do mundo inteiro imaginar que amanhã será um dia melhor, novas surpresas, novos brincos, novos batons, sem mover um móvel de lugar pra sequer mudar a cara da sala.
sinto que deixar de dar corda no relógio é feito parar o tempo. param os ponteiros e o próprio sol fica preguiçoso, com mais tempo de rolar lá em cima. tempo parado, palavra presa, café aguado, noites sem dormir e a imensa vontade de que a vida pudesse ser inteiramente alguns segundos de alguns momentos, pra ser inteira por algum tempo. (continua...)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

tambor de todos os ritmos

e vai piscando a lampada quase queimada, não sei se é possível esse lance de estar meio queimado meio aceso, e as escondidezas daqui reluzem vez em quando pisca ou somem amostraduras quando apaga, e a vida vai tão semelhante a um filme dos anos 70. há, afinal, tantas outras vidas, películas, perfumes, estradas e pandeiros que podem se tocar e fazer uma batida nova... - "alguma coisa acontece no meu coração", tenho a impressão que todos esses adventos da modernidade me dão saudade de você, dos novos baianos, do recife do passado, de uma são paulo menorzinha. vai saber? talvez estivesse esperando lembrar a saudade pro mundo que corre, afinal correr é coisa de pés, não de ponteiros.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

doce bordado de flor

não leio poesia
vó dizia enquanto cosia
que morreu de amores
nos tempos de sua alegria
vizinha nova que tinha a mania
de ler versos e versar
pra vida

parei até de lamber panelas
mexer na cesta de pão
olhar janelas,
vó era daquelas
moças bonitas que cosiam
as historias em nós

morrer de amores
só em vida

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

agosto

e tem sido assim
eu já nem sei
se tenho sido
eu


essa brincadeira toda de acreditar acima de tudo nas verdades que eu guardo, "do muito que eu li, do pouco que eu sei" das verdades outras que eu criarei pra acalmar a alma, não sei ser muito diferente disso tudo, mas tem parecido pouco, "nasci para amar, e para morrer" (esse é meu, autorreferencia e falta de criatividade), nasci sem saber ao certo que horas eram e hoje sigo a risca o relógio. que falta tem me feito a beira de um rio, quão presente é tudo que me faz falta hoje. agosto ri pra mim, riso escarnecido, é só um mês afinal, todo sorriso tem seu valor. e tem sido assim...
agosto de Deus, já não sei dizer o quanto tenho rezado.

Lonjuras

e ela me fala do dia
já pela tarde,
que espera a noite
abrandar.

toda forma de amor:
verniz de misturar cor
ou tinta de silencio e brilho
brilhos dos detalhes
que hoje temos tempo de pintar
nos ladrilhos de cozinha coloridos

há pouco a ser dito, realmente,
escrever é habito,
feito saudade,
a gente se acostuma a ser triste
e mesmo assim sorri
mesmo assim cozinha,
planta a horta, parafusa a janela,
faz plano,
compra iogurte,
ouve chico e caetano,
grita, cala, deita, ama e dorme

há de abrandar qualquer dia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Nana

brincar de silêncio
tipo esconde-esconde as palavras
e quando perco
as escondidas
pai diz tem de encontrá-las
palavra perdida é assombração,
esconde os cacos que Nana cata
doída das faces
desaveludada,
seus olhos cresceram pra passarinho
mas faz tanto tempo que não os vejo voar.
do acordar ao infindar
amanha bem cedo
juro catar fantasmas
e o barro dos jarros caídos
dar de presente pro pai uma moringa
um candeeiro pra minha irmã
um passarinho novo e sem gaiola
que pouse sempre na minha varanda

terça-feira, 31 de julho de 2012

Noturnas

e de tanto salvar o mundo em silêncio
gritei rouco
por medo do pouco
por puro
medo

segunda-feira, 30 de julho de 2012

doce salitre

tem feito dias de sol
e sal voador, imensos.
acostumado desde menino
a me sentir forte imponente
diante de pequenas vitórias
crente em Deus e Iemanjá
que as ondas que eu batia
de mãos finas
eram tudo que o mar tinha de mais forte.
tem feito dias de sol
vez em quando, quando em vez
olho a janela e o salitre
acumulado nas beiras
dentro de mim e minhas beiras
nunca imaginei que poema
com sol e mar e sal e beiras
pudesse ser triste
sequer pudesse ser mais que descanso
balanco de rede
mas hoje é só
a vontade de amarinhar
sentada na areia
de livros meio lidos
e pegadas semi pisadas
sal quase salgado
mar entre-posto
e a eterna sensação de viver
nas questões de tempo
enquanto o tempo dure.

terça-feira, 24 de julho de 2012

prainha

poesia perene
incandescida dos riachos meus
por sobre pedra
tal coube mar
poça se fizesse chuva
valeria chorar
simpatia solene dos homens
que eu não soube ser,
saudade imarcescível
e praias de minha infância,
oração peritura,
só amor começa

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"¡Qué lejos estamos!"

Más que la fe, lo que a Galileo le faltaba era corazón
don Toribio de Cáceres y Virtudes

acordo mil vezes antes de realmente dormir: relutâncias da minha consciência, barulho de árvores la fora, musica que não consigo tirar da cabeça ou saudade. insuficiência respiratória, juro, insuficiência respiratória, eu queria tanto um banho de mar agora, largar meu remédio vasoconstritor, meu medo de respirar poeira, a dor no olho direito que me lembra a assimetria do meu astigmatismo, peso da alma.
e é tanta despedida, tanta recaída, ainda não respiro e a poeira espalha feito perfume.
é tanta despedida, tanto pouca vida, tempo que assusta. árvores perdem suas folhas por amor demais, queria ser nodoso, outonal, insensível. talvez o seja, mas justo agora enquanto acordo mil vezes antes de conseguir dormir, por sede, repetindo a mesma musica pra conseguir escrever, riscando o chão de tanto ter apagado, sinto vontade de dizer que sinto falta de muita gente, mas desisto de antemão, mentir é feio e as pessoas mudam, sinto falta do que muita gente já foi, urgência de ser logo o amanhã.

"A que distância!...
(Nem o acho...)"

terça-feira, 17 de julho de 2012

Buxus sempervirens

passo a passo
tropeço nos degraus
e a venda
apertada venda
ilude os pés
em terrenos planos
degraus da horizontalidade
magnética
topiária cega
de minhas raízes tortas.

sábado, 14 de julho de 2012

by your side

tem dia que eu queria

um beijo de nuvem antes de dormir
me desmanchar em sereno
encobertador macio
das levezas noturnas

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Cayetanear

Post it's e cinquenta por cento de desconto
sente e chore lendo um romance
beije tudo que deu errado
beijo com mágoa na boca
com água na boca
com água lavo dissabores
me lamba por dentro do vidro
da embalagem
sensaborona imagem de panelas
cozinho hoje conservas e doces
em fogo brando, banho-maria-thiê-amadis
Radiohead
Forgemind
Exitmusicforafilm
e o calor cativo dos livros que queimei
por preguiça
ou por puro amor

Compotas e Baunilha

"Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes."
Manoel de Barros


no silêncio que o campo faz
quando vê o bater das asas
de tarde
pra baterem novamente por ele dentro
só de manhãzinha
fico escondido
brincando de pensando
na falta que faz caneca no café
falta das coisas que são coisas
que sempre foram, sem retorquir
nas embrumadas flores
baunilhas e amarelo-ouro
descasco as bananas maduras
e conscientes de sua pequidão
lembro das lacunas de horas
que o sono rouba
e a falta que elas nunca fizeram
sinto falta das cores
e do café quente amanhecido

quinta-feira, 28 de junho de 2012

e o vazio tem gosto ácido
de maçãs verdes
do vinagre pálido
de rosto pálido,
biblioteca cheia
num mundo cego.

cicatriz

céus ensolazulados
e cortinas brancas
dores mais brandas
chá e nudez altiva
canais trocados
a sopa que queima
a língua de lamber
mas não de falar
e dos montes distantes
sonhei roubar a brisa
pra ventar frio eu próprio
quando fosse de manha
e teu olhar fustigasse
em minha memoria
ou na pura imaginação
quiça na saudade
do céu nublacinzentado
refletindo pocas
e cortinas brancas
flores mais cores
dores mais brandas
quaisquer poesias
que marquem, cicatrizes,
a pele

quinta-feira, 21 de junho de 2012

tiro o pó das coisas.
antes que eu fosse menino
e descobrisse azuleza no céu
distante,
do bazar antigo da rua oito
e do sapato verde claro como os olhos,
dos milhares de quilômetros
que já não sinto que passaram,
da vergonha,
de brasília e de recife
do paço alfândega que ainda me sossega,
da saudade infinda,
ergue no peito e brinda
de taças e vinho vagabundo,
dos amigos que não sinto falta,
dos que me doem não ver mais,
dos que me esqueceram,
(e sinto que não conseguiria
fazer um livro que comparasse
à poesia de Vinicius e de Neruda
que sapateiam em meu equilíbrio
com versos calçados
e saltos de marfim salgado)
do Humaitá ao meu quintal
que tanto senti falta quando criança
das lembranças misturadas
com verdades que nem lembrava
e mentiras que quis esquecer,
tiro o pó das coisas e espalho no ar.
nostalgia é muito mais bela
quando em iminência
de queda livre.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

pra ser cozinheiro

I-

e nessa saudade-pena-de-cauda-de-pavão
que me furta a cor dos olhos
e de mesa farta
já me sento em cadeira frouxa
hora balança, hora descansa
da intenção de cair
me dá vontade de cair com ela
não levantar, só de pirraça,
equilibro meu desjeito
em dez mil pés
de profundidade

II-

Decidi fazer-me doceiro.
entenda que a necessidade de cozinhar
geléias
é feito enfiar as mãos na terra depois da chuva
nada pode ser tão miúdo
e tão sujeito
a ser tão grande

III-

derreto os pedaços de chocolate em banho-maria
são uma e vinte da manhã
e a madrugada é terrivelmente doce
imensamente escura
e eu estico com as mãos
sobre a mesa
seu negrume, meu paladar
engolitiva

sábado, 9 de junho de 2012

reza

porque disseram que eu não sei falar de Deus
eu abri a boca imensa e cheia de jardim
pires, cristaleiras e oceano
meu velho forte de travesseiros de quando era criança
a bronca do meu pai que ainda me dói
as areias do quintal
flores do meu beiral
pedaços de amores em carta
pedaços de carta em gaveta,
e o frio que os pés sentem quando pisam ladrilhos de manhã
e me calei.

prestenção, eu me calei,
mas só pra ouvir da noite e das horas que passam
silenciosas
tudo que eu queria saber dizer

sexta-feira, 8 de junho de 2012

bosque e cruz

só resta o cal
branco e pó
contraste rouco na grama bêbada
a queimar mais uma tarde do alto do céu
até horizonte deitado e preguiçoso,
restam as memórias de meus amigos mortos
as histórias que nem sempre eram verdade
as verdades que quase todos duvidávamos.
Lembro que pesar e pena são piegas
sofrer demais é démodé
e justo hoje que tudo é pós-moderno
ele pulveriza em mim suas agonias delicadas
sua dor fantasiada
de coisa bela

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ursa Maior


- Era só pra saber se tá tudo bem aí,
aqui a vida se arrasta
onde tudo é pesar e dança
onde ela dança e ela dança
no ombro leve do corpo pesado
alívio contra todo passado
lembrado
pisoteado numa valsa-tango-mansa
a vida arrasta no chão e não alcança
a paisagem misturada lá no fundo
ergo pilares, altares enquanto o mundo
esquece a dor e a altivez
carrossel colorido, espero a vez
de sentar pra girar na roda
talvez
de sentar pra girar na roda
e ela dança tão bonito
que me cansa de olhar
a vida arrastando no chão
e nela tudo é força
ursa bonita e pesada
imensa
dos abraços retalhantes
de olhos tristes
pero son tan fuertes
hiberna e esquece
o verão logo chega


http://www.youtube.com/watch?v=JSi1SLsIEb0&feature=fvwrel

segunda-feira, 28 de maio de 2012

diálogos

- não dá pra segurar entre lábios
o que o peito quer gritar pro mundo
daí a gente agarra no dente
o que vem lá do fundo
pra não sair muito alto
e o sorriso explode
e tudo mais pode
quanto mais quer

domingo, 27 de maio de 2012

heart beat

quando de súbito levanto
de panos de prato, perfume
e porcelana pro alto
fugaz mão que arrebenta
o relógio e engrenagens
e cata no chão os minutos
do descontrole que há no sangue
correndo sob sua pele
veias teleológicas
veias entumescidas e potentes
Deus entregue em ponteiros
no tapete
espalhado no tapete
de mãos ao chão
esperando que o cate
ou que o tempo mate
o tempo pra que passe
e que passe tempo
pra que passe
o tempo
por já passe
quando passa
o tempo

de súbito levanto
o relógio quebrado
e o tempo é só
as aves que levantam voo
e vão embora de tardinha

a insônia não tem minutos
sempre mais um momento
pra lembrar
quando acordo
que te amo
sem ao menos imaginar
que horas são.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

amanhã nunca mais

só...
e quando o drama toma conta
é na encenação da vida
vivida feito palco em si mesmo
que as sombras tomam forma
teatro de iluminações
venham todos os diálogos
que sou só retórica
sem retoques

me prometi que disso sairia um belo poema
que sei de poema?
faço chiar as suspensões do carro
chiam meus joelhos
nos buracos da rua onde passo
sem pena
em cena seria outro, mas não há
agora
expectativas
nem espectadores

esperaria eu que viesse toda formosa
pra ensinar a dor a saber
passar?
demora a vida inteira
e sem sorriso não dá
sem recomeços, não dá
não dava,

onde levanta voo o amor
senta pra pensar teus quadris
extinguo do palco minha essência
nunca fui qualquer Amadis
não sei empunhar espada
não sei ao certo o lugar
onde haveria de estar
mas por sorte
me encontrou

na coxia.

terça-feira, 22 de maio de 2012

outra rosa

Não sei se é demais sentir saudade de não especular sobre greves, temer a protelação da vida, não se preocupar em amarrar os cadarços ou sequer ter uma calça bem passada pra vestir. Saudade de ver os parentes com frequência, saudade de não vê-los tanto assim, tradições natalinas, pascoais, carnavalescas, e quando tudo era mais uma foto no meu álbum, olhar quase triste e sentir saudades. Implicâncias da irmã mais nova, do pai e da mãe, saudade de desarrumar as frutas do fruteiro e reorganizar sentindo que aquilo tudo era uma habilidade insuperável, subir no banco da cozinha pra fazer vitamina de banana e mil outras frutas descombinantes de manhã bem cedo, errar o cesto de lixo e praguejar as cascas que morreram de queda. Saudade de dormir quando sentia sono e acordar quando o corpo já não queria mais dormir, sonhar... sonhar em preto e branco e saudade ainda de imaginar quando acordava quais seriam as cores que eu não enxergava, o perfume forte e doce de minha avó, a bengala de meu avô que insistia em acidentalmente me acertar a cabeça enquanto assistíamos televisão, tanta saudade de meu avô e sua navalha que limpava-lhe o rosto sereno em frente ao espelho enferrujado, esticando-se pela falta de altura, saudade do chão de ladrilhos.
Saudade do chão de ladrilhos
E da parede de ladrilhos também
da Porta de filmes de Cowboy, do barulho de carros na rua, das luzes que invadiam a janela à noite, buzinas bem longe, o silêncio aqui dentro.
E quando tudo é saudade demais de se sentir
deixar ser saudade demais pra se aguentar
sentir que aguento demais pra ser saudade
ainda sentir falta dos ladrilhos, meu avô, pai, mãe, irmã, avó, bananas, cozinha, sono, travesseiro, quarto pouco iluminado, porta retrato quadrado, e do redondo também, da namorada que eu ainda não tinha, dos filhos que a vida trará, de escolher nomes pros bichos, da manga rosa que caia do pé e eu chupava sem pensar que amanhã seria outra manga, outra manga, outra rosa.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

falta ar à boca
aberta, quase grito
da miudeza ao infinito
falta ar

copo meio vazio
meio cheio
dentes separam a fala e a língua
repara:
duas bocas se encontram
pra dizer no tato
o que a audição não ouviria
sem cobrir de sangue
o meio interno das faces
rubricas de doação
assinadas por saliva
e alívio




p.s.
(queria poder tirar de ti qualquer aflição)

seu Binidito

e o barbeiro preciso
desde meu avô já perguntava
ao me sentar na cadeira de couro,
aconchegantemente grudada pelo suor de minhas costas,
“manézinho! Arco, Tarco ou quer que mói?”
o mundo tripartia em opções
absolutamente livres de qualquer norma
absolutamente presas à normalidade
dos meus dedos que acenam
e do talco que brisava meu pescoço
ele cantava BB King, sem vergonha do seu português preso no bigode
prendia a atenção de todos
no bigode
a navalha
tripartia.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Elísios

deixa eu arrancar com dentes fortes
teus medos, teus males
embaraçar-lhes cabelos soltos
que roçam barba e peito
arrancar de olhos revoltos
cingida cintura disléxica
e ensinar no movimento
o arrancar de seu tormento,
pudor e o firmamento
de teu céu de boca aberto
da castidade dos teus olhos
da vaidade em minhas mãos,
Naus de Dionísio
Naus de Dionísio
desembarcam teu corpo
recriam campos Elísios
de mil anos de esquecimento
e arrancar o seu tormento
pra lembrar à tua nuca
que nunca haverá
mais qualquer deserto

de perto

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Véspera

Abria a janela devagar. A chuva havia começado há pouco, era hora de refazer o ar do quarto com a brisa fresca, abria a janela pra que pudesse respirar.
Vésperas são deveras angustiantes, sensibilidade deixa de ser uma palavra ou uma característica pessoal e se transforma em pele, irradia, redevasta os pelos e poros atrás de qualquer toque ou imaginação de toque que possa arrepiar, fazer chorar, vontade de sorrir, trancar-se do lado de fora de casa sentindo-se só e do lado de fora sozinho. Vésperas: não é possível imaginar que haja singular nesse caso, sempre vem acompanhada de tanta coisa, lembranças de mil anos, acontecidas e inventadas, confundidas, quando tudo que se quer é esquecer.
A noite e Debussy fazem tanto sentido
Tuyo, Saulo, Kinha e Ellen Joyce fazem tanto sentido
Miloca faz tanta saudade,
Pernambuco nunca esteve tão longe, tanto quis mandar lembranças à Paraíba...
Abria a janela devagar. A chuva voltou a bater ládefora forte e a brisa me invade, quase sufoquei escrevendo, abria a janela pra que pudesse respirar.
A vontade de entender as vésperas, vesperar,
desesperar meus sentidos em montanha russa
o universo em expansão em meu estomago
universo em expansão
tão miúdo que sou, tam sen sabor, sen rezao,
Mas à noite muitas coisas surgem
e quase tudo faz sentido...
ajeito a porcelana de vidro e plástico em minha mesa
ajeito porque tudo faz sentido,
amanhã de manhã é dia sem vésperas,
hoje tudo foge, tudo é chuva a bater na janela,
Ellen Joyce faz tanto sentido,
Abria a janela devagar. A chuva havia vesperado há pouco, era hora de redizer o ar do quarto com vida fresca, abria a janela pra que pudesse respirar.

terça-feira, 15 de maio de 2012

virá

pra passar o tempo
na curva eterna do relógio
curva mais eterna
tua cintura
e pros ponteiros de ponta dura
aponta-se o fim da hora
o começo perdura,
donos do tempo.

e a poesia que não quer calar
curou-se a mudeira

todos nossos amigos
cheios de talento
e olho de Hórus
tatuagens
precisamos acreditar
que todos os segundos
são eternos,
o tempo passa pra provar
o sabor do nosso saber
deliciar-se
nas nossas rugas
fugas
torres de imensidão, pontes de desdistanciamento
nossas rugas
que hão de atritar-se
em todo deitar
todo viver

pra passar o tempo
em linha reta

todos os nossos amigos
há hoje no ar
cheiro do café
de amanhã (de manhã)

terça-feira, 8 de maio de 2012

colorido

ajusta o relógio da sala
pra que bata na hora do chá
(cuidado, a madeira é antiga
pode a qualquer hora quebrar)
cuida pra que seja logo
quente, leite ou dois torrões,
que depois é tempo de cafuné
gritar com sol ou chuva
(o que vier nos visitar)
ou venham os dois em par
certas coisas lembram mariposas
a buscar luz
em qualquer canto
certezas-coisas lembram mariposas
tão bonitas sem cores
borboletais
em suas asas que mesmo
e mesmo assim batem

segunda-feira, 7 de maio de 2012

shampoo e esponja vegetal

ei, pai
era só pra contar
quando pequeno no banho
vi teu peito ensaboado
e quis ter eu também pelos
pra fazer espuma.
hoje me depilo
não por distanciamento
só porque mudei
mas ainda o amo

quinta-feira, 3 de maio de 2012

mon billet

vem comigo pra Paris
-Lisboa
tomar café nas praças
fingir que a neve
faz bem
pra pele
e vestir casacos
acarpetar o chão do ap.
vinis na parede
(e o silêncio de quem sai de casa pra olhar a rua)
(lembrar que a meia perdida em minha bolsa é tua)
esquecer que saímos de casa
debruçar saudades em vinho
e um cachorro e um gato
King Krule pra ouvir
a conveniência
de sermos donos
do que é nosso
ainda sinto saudades de tuyo e de mila
(prepara a casa, abril Saulo vem)
abril vem Saulo
e logo depois primavera
pra nossos sorrisos
desabrocharem

domingo, 29 de abril de 2012

touro na casa VII

Tudo começa em samba, acaba em cama. Há mais movimento em meus pelos sob a roupa cuidadosamente escolhida pra te agradar que na praça aqui em volta, sussurros em meu ouvido, bagunçados pelo barulho, arrepiam; teu toque em minha mão. E no meio de falar sobre Clarisse, happiness, carnaval e quarta-feira de cinzas: "Olha a lua, lá no fundo do mundo, roxa..." e ela vai morrendo devagar pra acender a noite e escuridão, fazer valer os outros sentidos sempre esquecidos, queria te sentir nessa noite sem lua, tatear seu universo em meus dedos, saber dos toques, do desenho que nosso suor faz brilhar.
É fácil falar de estrelas e céu, imensidões que contagiam e enobrecem qualquer amor, eu queria era dizer das pedras em cima da mesa, sua obsessão por arruma-las nos quadros brancos, a falta das pedras e do café subornado com cinismo, dos amigos que rodeiam, rodeiam, sempre rodeiam: o centro é teu. E a chuva cai pra fazer correr, pra molhar cabelos arrumados sobre roupas que não foram a primeira escolha, pra dar vontade de fugir e ouvir Bon Iver pra sempre; a noite despreza planos, há muito mais planejado para nós que a própria decisão pudesse um dia imaginar, aquietemos silentes e de meio-sorriso tímido em face (por dentro é que ele explode em gigantismo e descontrole).
Sou tua balança, libra,
teu balanço.
e com o tempo mostro
que não canso
com o tempo mostro
que não canso
mostro
manso
o que só com o tempo se pode ver


pra ser Vinicius de uma só

e te ler cotidiano feito respirar,
deixar antes de dormir ou acordar
morrer
o medo


poesia em vida
poesia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

vermelha

...a luz (...) te desagrada, paciência; de tão branca toma pra si uma certa vermelhidão, um tom febril, desconcertantes segundos de pura observação. Mira, "En tus ojos peleaban las llamas del crepúsculo, y las hojas caían en el agua de tu alma"... arrancaste de mim todo o conceito inato de respirar: é agora, antes de tudo um ato desesperado de manter-se em comunhão com teus detalhes. É na respiração que eu te domino, acalmo teus sentidos e afrouxo seus temores, ainda me falta ar.
não me falta nada.

teu riso-aparador-de-sonhos
teu riso-aparador-de-sonhos

teu puro regojizo
em minha pele




"Más allá de tus ojos ardían los crepúsculos."

terça-feira, 24 de abril de 2012

praieira

proto-poesia
viva e emplumada
viva e espumada
repousa as âncoras na praia
tanto cinza era seu voo
tanto breu
descansa suas plumas pálidas
e canta um canto de retorno
às areias e pedras de vulcões
tal oceano, desregra direções
levanta cálida
silêncio e olhar
se apaixona
perdidamente
por voar

sábado, 21 de abril de 2012

Sinus Amoris

é tempo, amor,
de se preocupar com os amigos
é tempo de ser sempre mais
doce
pouco sobra do resto do mundo
e em cada esquina
mímese oceânica
de ondas que já não sei seguir
nem mergulhar

vem já, por favor,
intemperismos de sua natureza
brincam nos relevos
de minha pele.
ser um tanto mais eternidade;
é tempo
de esquecer o tempo
e perdurar

quinta-feira, 19 de abril de 2012

un café, s'il vous plaît...

Faltava às mãos a quentura controlada e amornizante da caneca cuidadosamente decorada com uma âncora. Âncoras não são meros detalhes, aliás, amornar é uma palavra tão bonita que faz afundar o peito em conforto, como no sofá de casa, o meu sofá. Eu não vi ser feito, estava, como que por mágica, pronto pra meu toque em cima da mesa quando dei por mim, mas não faz tanta diferença, aquecimento da mão, esquecimento do antes, sentimento que virá depois, tudo isso se tece, se sorve, se vive; ante todos os fatos ainda é essencialmente um café quente, deliciosamente quente, e pronto pro meu corpo.
Ancorei as mãos na caneca e soltei minhas velas, já não quero navegar pela casa sem rumo, penso enquanto passo pelos quadros sobre o sentido da quentura, o que seria o sentir-se quente sem necessariamente entender o que é o frio, tropical como sou, quanto mais quente melhor. Pires, facas, agenda-jornal, papéis riscados (aquele de ontem a noite tão ininteligivelmente rabiscado), tudo isso some diante do cheiro, do calor, da materialidade sentida do calor, se perde... Lembro uma poesia, Pessoa, só ele me bate na cara, me ofusca e eu só penso no sol. O calor que eu sinto é indiscutivelmente, sem metáforas, algo solar.
O desbrilho fraco da luz matinal me toca, era pra ser só mais uma reflexão, só mais um reflexo, só então percebo as semelhanças com a fraqueza luminosa do meu quarto, não me faltam franquezas nas palavras, falta clareza de pensamento (ou eu ainda insisto nisto pra me forçar a pensar e deixar tudo certo), falta um quê Madrigal, faltava tanta coisa, afinal.
O amor não é mais que o café quente antes do nascer do sol, aquele que te tira da cama cedo pra viver mais um dia, faz antes de o dia acordar estar pensando em mais uma forma de aquecer-se, a dormida gostosa de conchinha, o cheiro de corpo que fica lutando contra o banho pra não sair de mim, o banho que me refaz pra receber um beijo e um elogio à meu cheiro de limpo, tantos aromas, toques, detalhes, coisas que no fim das contas são imediatamente esquecidas, coisas que no fim das contas eu não esqueço jamais.
Faltava algo a dizer, sempre esqueço... Não se espante se um dia te convidar pra tomar um café comigo, não sou lá de muitas palavras, acho que não fui feito pra isso, possivelmente lerei algo pra ti (não meu, morro de vergonha), mas lerei algo bonito, com cara de café da manhã, mesmo que seja tarde, vou começar a pensar numa forma de surpreender seus sentidos, todos quantos eu puder, mas acho que isso eu só poderei fazer de manhã cedo, não leve a mal, mas é que pensar em teus encantos me faz lembrar que faltava às mãos a quentura controlada e amornizante da minha caneca cuidadosamente decorada com uma âncora, e não poderia pensar em ti se não fosse no comecinho do dia, sem sol, tomando meu café na varanda, planejando o dia, tecendo, sorvendo e vivendo sua imagem quente (me aquece todo, feito o café) bem cedinho... Ah! perdão, vamos tomar um café?




http://www.youtube.com/watch?v=lezxvDqRk8s

quarta-feira, 18 de abril de 2012

atiradeira

rasgam-se
tocam-se
juntam-se
milimetricamente

suam

o sol lá fora
rasga
toca
junta
tudo aqui dentro
feito pedra de atiradeira
que voa pro alvo
mas não escapa do vento
submissa ao ar

rasga
toca
junta

o ar que me falta

e o sol lá fora
mimeticamente
queima
o céu
e o ar que me falta
ar

ai se todo dia fosse só pedra de atiradeira
e alvo

domingo, 15 de abril de 2012

uma de amor

e tudo aqui é pra você:
discos de Jobim,
Chico,
Caetano e Elis,
de ontem pra hoje
toda poesia que fiz
tanta coisa
tanto jazz
tanto carinho
o cuidado com as louças
o desviar de olhos
o encontrar de olhos
o abraçar de cheiros
o radio baixo pra que ouças
musicas que me cantam em ti
te dançam em mim
nos regem
na sala
de casa
e nada mais é mais bonito
que a dança que guardei
e os sapatos que tirei
pra sentir seus pés nos meus
rachados, imperfeitos, tão pés
feitos pra dançar
a dois

sábado, 14 de abril de 2012

Áquilo

alento vem
e vento vai
lento
sem curvas
levar ameno
em passo calmo
jeito sereno
uma porção
de amor imenso, tempestivo, trovejante
mas ainda
amor

quinta-feira, 12 de abril de 2012

torradas, geleia e manteiga...

No passo que desvio em direção à cozinha, tropeço novamente no sofá; praguejo alto como se a vida fosse ruim comigo, e era só um sofá, me calo por fim com vergonha dos quadros e outros móveis testemunhas do meu desequilíbrio, tapete juiz sisudo de caráter e comportamento, só o cheiro de café me curaria. A cozinha é o melhor cômodo da casa, já dizia minha mãe: Lugar da família se reunir, brigar, redimir, redimensionar os horizontes e fazer da cesta de pão um ninho de manhã. É justamente aqui, nos ladrilhos floridos antigos de minha cozinha que me sinto bem, minúcias minhas, pequenezas da mesa posta, saudade imensa de um sonho de criança do olhar de criança, medo do porvir.
Tem horas que nem a poesia se concretiza (basta olhar pra ela, eu sei, mas ela não está aqui agora) e tudo se faz quase perdido, óperas do passado vem encantar com materialidade tamanha, assombram de verdade, a cozinha, afinal, já há muito ficou pra trás, resta só o desejo de voltar. Vinícius marca minha pele, meu discurso, minha forma inacreditavelmente romântica de amar (até pra mim mesmo é assustadora), nem Duby entenderia minha necessidade de um amor de conto de fadas, medievalmente moderno, carregado de todo o cortejo, desejo, felicidade-para-sempre, contra toda decadência da monogamia ocidental, um amor de emprateleirar na história. Por quantas vezes queimei a boca no café quente, perdi a conta, afinal, café pode queimar, vó já me alertou, mas é só nele que o corpo aquece, descansa e sente bem.
Ladrilhos. Amigos são aqueles que nos abrem os olhos; amores são aqueles que nos fazem fecha-los e ainda assim continuar andando, de mão dada, morrendo de medo dos móveis que podem se jogar suicidamente em nossas frentes, mas ainda assim mais preocupados com os dedos que nos tocam as mãos que com o resto do corpo inteiro que nos pertence. Amigos aconselham à ouvir o coração, contra todo passado, toda topada, todo mal que há de ter marcado, amores nos fazem esquecer de qualquer coisa que se possa lembrar.
Só o cheiro de café existe, torradas na mesa, geleia e manteiga, carinhos de uma cotidianidade metafísica, saudades dos filhos que o futuro trará, o dobrar de lençóis de cama bem cedo, pois o dia se levanta todo dia, "Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa" mas estar de mãos enlaçadas é essencialmente nosso. Vem sentar-te comigo à beira da mesa, hoje o café quem serviu fui eu, amanhã é sua vez, sossegadamente fitemos nosso curso e aprendamos: para qualquer mal, qualquer medo, quaisquer dúvidas, temos um rio a nossa frente, suas águas tudo levam; nosso lugar é na beira, na sombra, só nosso.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

alvorada

distraído demais
noite demais
diz o bom senso
mas já não penso
é só detalhe
porcelana
e café da manhã
cheio de cheiro
cheiro de sonho
alvorecendo céu
contra sono
contra cama
contrassenso
do sentido
percebido
pela pele
contra pele

vem se por
no meu peito;
amanhã é
tudo de novo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

oração

baixo o tom de voz
estar a sós
já não há

resta aquela timidez
dos sentidos
se confundindo
aos dela
entendendo de certo
que mesmo longe
ainda estou perto

tom de voz já não há

silenciar diante da beleza das coisas
é admirar duas vezes
com os olhos
e com ouvidos

imaginar a beleza das coisas
é admirar duas vezes
com os olhos
e com ouvidos;

aqui eu falo de prece, uma oração:
me calo, cego, ensurdeço, deito
viro do avesso
respiro, transpiro e não respiro mais.

entendo de certo
que mesmo longe
ainda estou perto...

batuque e descanso

nem que fosse
som de tambor
tremendo o chão
e rasgando o ar
ainda seria
trejeito ou magia
extensão das mãos
que ensejam tocar
sua pele
sem melodia
nem que fosse
desmaterializar
meus fragmentos
teus formigamentos
pra me sentir
perto
do lado
ou quem sabe Deus
lá dentro
bonito fosse
chamado o teu colo
alento

segunda-feira, 9 de abril de 2012

ao poeta da janela

é impossível escrever sobre o que passa
o que na rua... ... ... passa...
ignoram-me as coisas simples e complexas
e os meus gostos, gestos, sílabas
todo desacordo some
todo seu acorde come
desafeto ou desalinho que houvesse em mim
e o bonde que não pego
passa
a tinta que emolduramos
passa
toda a brevidade eterna do sorriso sincero
as vezes passa
e agiganta, arrasta, empurra relógio adentro
carrega consigo os dentes
e a fome de mostrá-los
pra que no futuro
quando tudo mais que há
haverá de ter passado
haja lembrança que no meio tempo
meia rua
a descomplexidade de dois braços
em abraço
nunca passaria


(para Tuio)

colo

era só pra te ter um pouco,
ouvindo caetano matar chico
na varanda
me preocupar com o balanço da rede de nós dois
despreocupar no balanço da rede de nós dois
me ocupar do balanço de nós dois
e o que houvesse da porta pra lá
passasse...

era só pra te ter um pouco,
desconsiderar o que há longe
espalhar meus dedos, minha poesia na tua pele
e gritar de volta ao teu silêncio
com o corpo-voz, porta-voz da vontade
de nós dois
e o balanço de nós dois na rede
balançasse...

era pra te ter só um pouco,
já não há
como
pensar
pouco
ficou
pouco
ficou
pouco
ficou
pra trás
vem de samba
que a noite
é sempre muito
mais

sexta-feira, 6 de abril de 2012

defeitos

bonito mesmo é contato de pele
suor
carinho
a sensação de não estar sozinho
o resto é só atrito
e maciez
sobre o estrito conceito
de sublime
do defeito
o desprezo à metafísica
das imperfeições
recria padrões
e encaixes dos seus poros
nos meus pelos

em branco (quase)

teu cenho me corta
metrifica, pauta
deslinhas da mão-lápis
riscos dos dedos-giz-de-cera
me pintando na noite
madrugada aberta adentro

a pele da gente é sempre mais que papel
precisa
ser riscada
precisa
como preciso
que escreva em mim
teu nome,
não pra lembrar, isso não se esquece,
pra que sinta
tua caligrafia
me acarinhar
fora das gavetas

quarta-feira, 4 de abril de 2012

onze horas

tem dias que falar é desimportante
escrever é menos ainda
tenho gostado mesmo é de sentir
ela sorrir com meu nome dentro
mesmo quando não olho
mesmo quando é só
banco e brisa
e árvore
em silêncio

segunda-feira, 2 de abril de 2012

manhã

sê inteiro:
vapor de chaleira
deseducadamente utilizada
pra fazer café,

trocar panelas
é reinventar
o dia.

sábado, 31 de março de 2012

reflexo II

si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida.
Neruda



que falte tudo: café, pasta de dente e gasolina,
nó de gravata, talco pra pés, rua, vitrines,
jornal, Ronei Jorge, cinema, teatro e Pina,
músicas de Tuyo, doçuras de Saulo, medo do escuro
que grita depois de toda dobra de esquina,
falte sono, disposição pra levar o dia nas coxas,
vontade de sorrir, controle contra grito e buzina
paciência pra família, vontade de sair fim de semana,
freio, que meus pés não conheçam descanso;
Mas que sobre amor, por favor. Haja sempre um pouco mais de doçura.

quinta-feira, 29 de março de 2012

reflexo

pensa;
vazio das coisas
visíveis
o céu continua lindo
imenso, macio de nuvens,
cheio de sol.

conclui então que a fórmula mágica
e instantânea seria a falta
das coisas de ver
ouvir
sentir
essencialmente a falta,
talvez de ar.

sabe;
falta amor nos muros
parques, bancos e sorvetes
lá no interior
(de nós, do país)
onde é serra
tanto faz mar
falta amor
nas palavras
indiscutivelmente
nas palavras.

cuida
dos passos que teus sapatos dão;
falta amor na sola
pisada,
lembra:
o chão tem o poder
de poder ficar pra trás
sem ser amado
sem ser julgado
pelo equilíbrio de tuas pernas,
virar passado
desesquecido
sem nunca ter feito
tropeçar

quarta-feira, 28 de março de 2012

mantra II

é de janela meu pesar
já nela não há
verso cantado
olhar roubado
há tudo perdido
molhado na face
rapidamente seca
em travesseiros
e melodias
de amigos

travesseiros
esquecimento
e na falta que ela me fará
até não fazer mais
diferença

mantra

o vento passa

o rio passa

o tempo passa

o tempo passa

o tempo passa

terça-feira, 27 de março de 2012

apontamentos florais

o despetalar é lento
constante
desflorir se faz importante;

reinvenção
máxima do algodoeiro
e a maciez
suprime
a beleza

segunda-feira, 26 de março de 2012

e se me calo
é teu silêncio
me atravessando
extransbordando
pelos meus poros
arrastado pelos cabelos
pra emergir
na boca

tanto quis dizer
e não pude,
é que eu me calo
pro teu silêncio
passar por mim,
(é só respeito
pelo seu jeito
pedra de ser)
mas é que à noite
tudo dói mais
e o corpo fala
contra vontade
entrega a dor
de amar
calado

quarta-feira, 21 de março de 2012

reminiscências

tão perto
que o desenho das imperfeições
da tua pele
marquem-me
rasurem
meus traços
teus rastros
confundem
pela imensidão
macia dos lençóis
a sós
já não há
de nós
pouco a dizer
o que fizera
do quarto e de mim
deixa tão perto
imperfeições do meu caráter
meramente ruidoso
meus rastros
acertam na pequeneza
fria dos detalhes
tua pele, teu cheiro
apertam o ar no teto
há pouco espaço
pouco espaço
há pouco
eu era outro

de longe
desenhos de nuvens
Altas, indiferentes
decoram-lhe
figuram
os astros
encalços
perdidos no céu
ignoram-me,
nem balonista
fosse eu
faria diferença,
tanto a dizer
o que não fiz
de nós, do quintal
e paisagem
resta só a vontade
de ser nuvem também
pesado, chuvoso
tão Alto
e passar
por cima
do mundo

terça-feira, 20 de março de 2012

poças

descansa suas dores
nas rasuras, infunduras da minha superfície

mas mantém olho aberto
três passos
e já não há volta;
pra lá das pedras
o mar é cais
e só não afoga
quem souber nadar.

sábado, 17 de março de 2012

reminiscências

só dá vontade de repartir a vida em mil pedaços
pra ir vivendo
um pouco
de cada vez.

vida inteira é demais pra mim
vivo tão pouco desse jeito
não tenho peito
pra sambar
nesse tom

terça-feira, 13 de março de 2012

noturnos

tranca minhas palavras
teu silêncio
cobertor noturno
que aquece
e esconde
meu corpo do teu olhar
e do sereno

sexta-feira, 9 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

pra ela

não sei se é 2 de fevereiro
ou puro desconforto
aqui dentro do porto
onde não vejo teu veleiro
ancorar

sexta-feira, 2 de março de 2012

estação

falar do inverno que me abraça
quando penso ou imagino
tua presença
já tão ausente
é fácil,
difícil é o verão
lá de dentro
quando penso ou imagino
tua presença
ou invento
que te vi
de relance
brincando de bem-me-quer
pra fugir de minha rotina

quinta-feira, 1 de março de 2012

Recife

o recife que há em mim
desimpede o oceano
de banhar-me as praias
onde tenho mais sol
imortal
o mangue nunca se acaba
ponte nunca se acaba
mundo lá fora desaba
do recife que há em mim
pra lá

aqui o oceano banha-me as praias
onde faço sol
imortal

tango nas ruas

passos caminhados contra o tempo
contra vontade dos pés
contra a natureza
da eternidade que há
num segundo,
das paradas abruptas
trancos secos no ar resistente
só os sustos das roupas
ficam
passam no correr pesaroso
imperceptível
e ficam
aquém.
a vontade de chamar-te
e que sentasse comigo
mãos enlaçadas
à beira da vida
passa,
e ao vê-la passar
passo o ponto
passa o tempo
quando
sei o quanto não entendo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

rua

se tu soubesses
o quanto dói
(lembrar)
não amaria,
ou amarraria
teus cachos dourados
que só refletem
brilhos
e descanso de roupas
folgadas
de manhã.
busco a beleza
nos cabelos que
passam
de ternos alinhados
prontos
pra viajar
desligados
pra amar,
é quarta feira
despejando rios
de saudade
sem borda
nem beira

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

no tropeço d'outros pés
impulsiono olhos,
desreparam o mundo
trocam-se
tocam,
pra sentir na boca
o peso dos teus cachos
no balanço do vento
leva pra dançar
em seu vestido
florido
florindo
sorrindo

sábado, 25 de fevereiro de 2012

outonal

a folha despenca
contra vontade
e gravidade do fato
esperando o contato
d'outra folha resistente
nessa queda
tão livre

desamparo inquietante,
fim da linha da liberdade
é sempre a desmaciez
áspera
do chão só
desfolhado
salteado e só

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

metrô

cuidado
esquinas se dobram
por dentro
confundindo os caminhos
já tão camuflados
por pés corredores
e corredores
direcionais de qualquer
pra qualquer outro lugar
cuidado
nenhum dos caminhos
te ensina
verdadeiramente
a amar

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

arranjo

I

chão e pé
tropeço meus olhos na banca
cheia de livros
e paro por um instante
recuperando a retina do impacto
rezo baixo pra brisa bater
no corpo e no movimento um pacto
se firma
a calçada é pequena demais
pro seu caminhar silente
de fones de ouvido
e óculos escuros
sombreiam demais
pra que enxergue
meu olhos
tropeçarem novamente
em teus cabelos curtos
e paro por um instante
recuperando a retina
do impacto
do deslise
e derrapagem
na pista

(ainda não terminado)

carne

falta boca escolhida
sobra mão desconhecida
suor
sem o sal que me cobre
chuva
sem brilho que o sol me trás
na beira
do que chamo mar
da chama acendida
pra esquentar
na lonjura que me encontro
do frio destruidor
que todo esse calor
de corpos
nada me dizem.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

carnaval II

de olhar tanto pra cima
esperando a chuva que havia de cair
esqueci que na rua
embaixo de minha linha visorizonte
tremia a tempestade
do suor que evaporava
fazendo chover no céu
pingos

o meio do caminho
parece ser bom mirante.

Olinda

no desalinho
amparado na retidão
derreto
e a multidão
que passa
passa
por mim e por entre ruas
aninhadas entre céu cinzento
e lama

no desalinho
descaminho
os passos
e do alto
porbeberes e beijos não dados
flutuam
entre gente
a gente
vai
malcriadamente
carnavalizando

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

carnaval

bate no peito
um vento
sem tento
e na rua água que lava
cai do céu toda abençoada
pra me tirar da calçada
jogar contra multidão
fazer multidão
sou eu só
uma multidão
em pernambuco sob meus pés
mas muito mais dentro do peito
e lá bate dentro
fora
que a Olinda em meus olhos
é muito mais
que a de meus sonhos

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

nossos

descansa sua boca nua
no desmovimento
munido
de silêncio
e em silêncio
mostra com olhos
o canto da sala
o porta retrato
o que não reparei mudado
o que, calado,
se fez grande
como sua ausência
e bem baixinho
toca na vitrola
aquela nossa
pra que fique tudo igual
por dentro
enquanto leio Clarice
enquanto ouve Caetano
e seu carinho
quebra em silêncio
a mudeza dos corpos

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

dança

feito criança
na roda de capoeira
entrei todo garboso
de golpes memorizados
roupa nova
olho semicerrado
crente em Ogum
que pé algum
me derrubaria.
mas é da criança a beleza da queda
do baque seco
do fingir distração nas formigas do chão
brincar com o dedo na terra
desenhando vergonhas
desmentindo vaidades
esquecendo,
desarmado da maldade
não tenho capoeira
pra brincar na roda
e ela roda só
sem precisar de mim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

distante

é na cama
que não descanso
encontro no escuro
fagulhas e distrações
rasuras e más canções
entregues pelo ar
aos ouvidos
que os seus ruídos
já não escuto,
sua voz
já não escuto,
já nem me lembro
de te querer
então falo alto
pra levar longe
o silêncio
sua falta
então eu minto
pra levar longe
sua falta
e meus fantasmas
então eu deito
e não descanso
na sua ausência
me levo longe
e só bem longe
sei ouvir
e sentir
distância

(para Tuyu, um grande amigo)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

circo

será quase outono
quando voltar.
justo quando o céu é mais azul
e piso sem sentir
o que já foi verde
vivo
enquanto fui verde
vivo
do que já fui crente
no contraste horizontal
que só se vê no outono
vai voltar
corrompida
pra animar minha vida
feito circo andante
de roda-gigante iluminada
pra destacar na noite
que gira
por cima e por baixo de mim
e no outono quando o céu é mais bonito
até quando prendo a respiração
sinto seu cheiro de maçã-do-amor
meu olhar nela vindo de longe
em pleno outono
animar minha vida
de longe
vindo feito circo
cheia de cor
cor rompida
de cor
em cor
de coração silencioso.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

riso

eclipso
intermitentemente
no chão
nas pequeníces
onde a sombra
da falta de sol
paira
sem tamanho nem importância
onde grandezas
são estrangeirismos
desprezados pela poeira

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

passado presente

saí de casa
e o que há no bolso
não faz diferença
não é a presença
busco
no bolso da blusa
ou por trás
metáforas tortas
linhas tortas
olhares poucos
sussurros roucos
e saio de casa
de bolsa e bolso
cheios
não faz diferença
tudo fosse só
a sua presença
talvez não saísse
talvez só ficasse
pra ver o sol nascer
sob seus cabelos
vermelhos

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

e se você aparecesse
de surpresa,
ponta de pé,
de surpresa?
e o acaso acontecesse
do seu caso
com o meu caso
se casarem?
e nada mais
faria tanto
sentido, enquanto
sentado
lembro do espanto
e do quanto eu quis tanto
que você aparecesse
de surpresa
em minha vida,
ponta de pé,
e de surpresa
me roubasse de mim.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

sinfônico

orquestrado
no teu silêncio
sigo tuas mãos
cabelos, andar
passo a passejar
no trincar de olho
suas emoções emergem
transbordam
translucidamente enebriante.
no silêncio
danço tua valsa,
chorinho,
quase samba,
já nem sinto
quietos
os minutos que vão
longe
vão
segundos sem medida
de tempo sem som.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

intercessivo

desabam pilares,
sísmica sincronização dos céus
e chãos.
tremores internos,
tremores,
temores.
setentrionais amores
bóreos
auroreais.
o horizonte intangível
de longe ri-se colossal
em sua ignorância
do que há aqui dentro,
debaixo do couro
músculos e pelos,
emoção ou reação meramente química,
já não tenho tanta fé,
o ignoto
o que foge dos desabares,
desafia a intangibilidade horizontal
o ignoto;
o que nenhum céu
conseguiria
espelhar

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

naufrágio

e cave fundo
tão fundo
que o enterrado
confunda
olhar semicerrado
confunda
baú já naufragado
que afunda
no chão
do cais

aquém de mim
mar

e quando a nau é grande demais pra caber nós dois?
cheios de pequenos sonhos,
pequenos detalhes,
pequenices.
haveremos de nos perder, Adamastor
mas o medo da imensidão
é só o começo
do restrito
e desistente
bote;
remai.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

abuelita

pras tuas mãos que agarram
minha barba
mãos de guerra
e de vida,
hoje só carícias
sem malícias
tão minhas quanto
seus os pelos que segura
com o afeto
da corda
tão temperada pelos dias
de segurar
embarcações nas ondas,
pra elas
tudo,
em mim, paz.


(para Max Fonseca)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

sobre a luz do dia

as vezes dá vontade de falar
das luminárias,
pequenos sóis
particularmente ridículos
na falha empreitada
de alumiadoras
pouco encantadoras
fracas luzinhas
ínfimos candeeiros sem gás.

mas isso tudo é só porque
nas noites,
cômodos e incômodos que a escuridão traz
arrancando de mim aquele olhar que inclina
tentando ver no escuro algo assustador
não faz mais sentido

isso tudo é só porque
claridade tem nome,
sobrenome,
quiçá um dia, meu endereço...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ano novo

e o sorriso sol
iluminou a noite
por tanto tempo
tanto tempo
pouco fez diferença a vela
que queimava, pequenina,
prestativa na intenção
de acender
rostos
para outros rostos.
queima ainda tua pele
tuas unhas douradas
camufladas em minha pele
de muitos sóis
e muito sal,
contra todo mal
busquei em teu abraço
meu pedaço de mar
agradeci a Iemanjá
no meio da madrugada
atrapalhando seu sono
mas a bênção encontrada
vale qualquer castigo.
essa não será uma boa poesia
cheia de musica,
será uma confissão.
será o que eu quiser que seja
enquanto espero tudo o que quero
e o que será
de nós dois.