quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

rua

se tu soubesses
o quanto dói
(lembrar)
não amaria,
ou amarraria
teus cachos dourados
que só refletem
brilhos
e descanso de roupas
folgadas
de manhã.
busco a beleza
nos cabelos que
passam
de ternos alinhados
prontos
pra viajar
desligados
pra amar,
é quarta feira
despejando rios
de saudade
sem borda
nem beira

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

no tropeço d'outros pés
impulsiono olhos,
desreparam o mundo
trocam-se
tocam,
pra sentir na boca
o peso dos teus cachos
no balanço do vento
leva pra dançar
em seu vestido
florido
florindo
sorrindo

sábado, 25 de fevereiro de 2012

outonal

a folha despenca
contra vontade
e gravidade do fato
esperando o contato
d'outra folha resistente
nessa queda
tão livre

desamparo inquietante,
fim da linha da liberdade
é sempre a desmaciez
áspera
do chão só
desfolhado
salteado e só

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

metrô

cuidado
esquinas se dobram
por dentro
confundindo os caminhos
já tão camuflados
por pés corredores
e corredores
direcionais de qualquer
pra qualquer outro lugar
cuidado
nenhum dos caminhos
te ensina
verdadeiramente
a amar

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

arranjo

I

chão e pé
tropeço meus olhos na banca
cheia de livros
e paro por um instante
recuperando a retina do impacto
rezo baixo pra brisa bater
no corpo e no movimento um pacto
se firma
a calçada é pequena demais
pro seu caminhar silente
de fones de ouvido
e óculos escuros
sombreiam demais
pra que enxergue
meu olhos
tropeçarem novamente
em teus cabelos curtos
e paro por um instante
recuperando a retina
do impacto
do deslise
e derrapagem
na pista

(ainda não terminado)

carne

falta boca escolhida
sobra mão desconhecida
suor
sem o sal que me cobre
chuva
sem brilho que o sol me trás
na beira
do que chamo mar
da chama acendida
pra esquentar
na lonjura que me encontro
do frio destruidor
que todo esse calor
de corpos
nada me dizem.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

carnaval II

de olhar tanto pra cima
esperando a chuva que havia de cair
esqueci que na rua
embaixo de minha linha visorizonte
tremia a tempestade
do suor que evaporava
fazendo chover no céu
pingos

o meio do caminho
parece ser bom mirante.

Olinda

no desalinho
amparado na retidão
derreto
e a multidão
que passa
passa
por mim e por entre ruas
aninhadas entre céu cinzento
e lama

no desalinho
descaminho
os passos
e do alto
porbeberes e beijos não dados
flutuam
entre gente
a gente
vai
malcriadamente
carnavalizando

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

carnaval

bate no peito
um vento
sem tento
e na rua água que lava
cai do céu toda abençoada
pra me tirar da calçada
jogar contra multidão
fazer multidão
sou eu só
uma multidão
em pernambuco sob meus pés
mas muito mais dentro do peito
e lá bate dentro
fora
que a Olinda em meus olhos
é muito mais
que a de meus sonhos

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

nossos

descansa sua boca nua
no desmovimento
munido
de silêncio
e em silêncio
mostra com olhos
o canto da sala
o porta retrato
o que não reparei mudado
o que, calado,
se fez grande
como sua ausência
e bem baixinho
toca na vitrola
aquela nossa
pra que fique tudo igual
por dentro
enquanto leio Clarice
enquanto ouve Caetano
e seu carinho
quebra em silêncio
a mudeza dos corpos

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

dança

feito criança
na roda de capoeira
entrei todo garboso
de golpes memorizados
roupa nova
olho semicerrado
crente em Ogum
que pé algum
me derrubaria.
mas é da criança a beleza da queda
do baque seco
do fingir distração nas formigas do chão
brincar com o dedo na terra
desenhando vergonhas
desmentindo vaidades
esquecendo,
desarmado da maldade
não tenho capoeira
pra brincar na roda
e ela roda só
sem precisar de mim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

distante

é na cama
que não descanso
encontro no escuro
fagulhas e distrações
rasuras e más canções
entregues pelo ar
aos ouvidos
que os seus ruídos
já não escuto,
sua voz
já não escuto,
já nem me lembro
de te querer
então falo alto
pra levar longe
o silêncio
sua falta
então eu minto
pra levar longe
sua falta
e meus fantasmas
então eu deito
e não descanso
na sua ausência
me levo longe
e só bem longe
sei ouvir
e sentir
distância

(para Tuyu, um grande amigo)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

circo

será quase outono
quando voltar.
justo quando o céu é mais azul
e piso sem sentir
o que já foi verde
vivo
enquanto fui verde
vivo
do que já fui crente
no contraste horizontal
que só se vê no outono
vai voltar
corrompida
pra animar minha vida
feito circo andante
de roda-gigante iluminada
pra destacar na noite
que gira
por cima e por baixo de mim
e no outono quando o céu é mais bonito
até quando prendo a respiração
sinto seu cheiro de maçã-do-amor
meu olhar nela vindo de longe
em pleno outono
animar minha vida
de longe
vindo feito circo
cheia de cor
cor rompida
de cor
em cor
de coração silencioso.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

riso

eclipso
intermitentemente
no chão
nas pequeníces
onde a sombra
da falta de sol
paira
sem tamanho nem importância
onde grandezas
são estrangeirismos
desprezados pela poeira