sábado, 31 de março de 2012

reflexo II

si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida.
Neruda



que falte tudo: café, pasta de dente e gasolina,
nó de gravata, talco pra pés, rua, vitrines,
jornal, Ronei Jorge, cinema, teatro e Pina,
músicas de Tuyo, doçuras de Saulo, medo do escuro
que grita depois de toda dobra de esquina,
falte sono, disposição pra levar o dia nas coxas,
vontade de sorrir, controle contra grito e buzina
paciência pra família, vontade de sair fim de semana,
freio, que meus pés não conheçam descanso;
Mas que sobre amor, por favor. Haja sempre um pouco mais de doçura.

quinta-feira, 29 de março de 2012

reflexo

pensa;
vazio das coisas
visíveis
o céu continua lindo
imenso, macio de nuvens,
cheio de sol.

conclui então que a fórmula mágica
e instantânea seria a falta
das coisas de ver
ouvir
sentir
essencialmente a falta,
talvez de ar.

sabe;
falta amor nos muros
parques, bancos e sorvetes
lá no interior
(de nós, do país)
onde é serra
tanto faz mar
falta amor
nas palavras
indiscutivelmente
nas palavras.

cuida
dos passos que teus sapatos dão;
falta amor na sola
pisada,
lembra:
o chão tem o poder
de poder ficar pra trás
sem ser amado
sem ser julgado
pelo equilíbrio de tuas pernas,
virar passado
desesquecido
sem nunca ter feito
tropeçar

quarta-feira, 28 de março de 2012

mantra II

é de janela meu pesar
já nela não há
verso cantado
olhar roubado
há tudo perdido
molhado na face
rapidamente seca
em travesseiros
e melodias
de amigos

travesseiros
esquecimento
e na falta que ela me fará
até não fazer mais
diferença

mantra

o vento passa

o rio passa

o tempo passa

o tempo passa

o tempo passa

terça-feira, 27 de março de 2012

apontamentos florais

o despetalar é lento
constante
desflorir se faz importante;

reinvenção
máxima do algodoeiro
e a maciez
suprime
a beleza

segunda-feira, 26 de março de 2012

e se me calo
é teu silêncio
me atravessando
extransbordando
pelos meus poros
arrastado pelos cabelos
pra emergir
na boca

tanto quis dizer
e não pude,
é que eu me calo
pro teu silêncio
passar por mim,
(é só respeito
pelo seu jeito
pedra de ser)
mas é que à noite
tudo dói mais
e o corpo fala
contra vontade
entrega a dor
de amar
calado

quarta-feira, 21 de março de 2012

reminiscências

tão perto
que o desenho das imperfeições
da tua pele
marquem-me
rasurem
meus traços
teus rastros
confundem
pela imensidão
macia dos lençóis
a sós
já não há
de nós
pouco a dizer
o que fizera
do quarto e de mim
deixa tão perto
imperfeições do meu caráter
meramente ruidoso
meus rastros
acertam na pequeneza
fria dos detalhes
tua pele, teu cheiro
apertam o ar no teto
há pouco espaço
pouco espaço
há pouco
eu era outro

de longe
desenhos de nuvens
Altas, indiferentes
decoram-lhe
figuram
os astros
encalços
perdidos no céu
ignoram-me,
nem balonista
fosse eu
faria diferença,
tanto a dizer
o que não fiz
de nós, do quintal
e paisagem
resta só a vontade
de ser nuvem também
pesado, chuvoso
tão Alto
e passar
por cima
do mundo

terça-feira, 20 de março de 2012

poças

descansa suas dores
nas rasuras, infunduras da minha superfície

mas mantém olho aberto
três passos
e já não há volta;
pra lá das pedras
o mar é cais
e só não afoga
quem souber nadar.

sábado, 17 de março de 2012

reminiscências

só dá vontade de repartir a vida em mil pedaços
pra ir vivendo
um pouco
de cada vez.

vida inteira é demais pra mim
vivo tão pouco desse jeito
não tenho peito
pra sambar
nesse tom

terça-feira, 13 de março de 2012

noturnos

tranca minhas palavras
teu silêncio
cobertor noturno
que aquece
e esconde
meu corpo do teu olhar
e do sereno

sexta-feira, 9 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

pra ela

não sei se é 2 de fevereiro
ou puro desconforto
aqui dentro do porto
onde não vejo teu veleiro
ancorar

sexta-feira, 2 de março de 2012

estação

falar do inverno que me abraça
quando penso ou imagino
tua presença
já tão ausente
é fácil,
difícil é o verão
lá de dentro
quando penso ou imagino
tua presença
ou invento
que te vi
de relance
brincando de bem-me-quer
pra fugir de minha rotina

quinta-feira, 1 de março de 2012

Recife

o recife que há em mim
desimpede o oceano
de banhar-me as praias
onde tenho mais sol
imortal
o mangue nunca se acaba
ponte nunca se acaba
mundo lá fora desaba
do recife que há em mim
pra lá

aqui o oceano banha-me as praias
onde faço sol
imortal

tango nas ruas

passos caminhados contra o tempo
contra vontade dos pés
contra a natureza
da eternidade que há
num segundo,
das paradas abruptas
trancos secos no ar resistente
só os sustos das roupas
ficam
passam no correr pesaroso
imperceptível
e ficam
aquém.
a vontade de chamar-te
e que sentasse comigo
mãos enlaçadas
à beira da vida
passa,
e ao vê-la passar
passo o ponto
passa o tempo
quando
sei o quanto não entendo