quinta-feira, 12 de abril de 2012

torradas, geleia e manteiga...

No passo que desvio em direção à cozinha, tropeço novamente no sofá; praguejo alto como se a vida fosse ruim comigo, e era só um sofá, me calo por fim com vergonha dos quadros e outros móveis testemunhas do meu desequilíbrio, tapete juiz sisudo de caráter e comportamento, só o cheiro de café me curaria. A cozinha é o melhor cômodo da casa, já dizia minha mãe: Lugar da família se reunir, brigar, redimir, redimensionar os horizontes e fazer da cesta de pão um ninho de manhã. É justamente aqui, nos ladrilhos floridos antigos de minha cozinha que me sinto bem, minúcias minhas, pequenezas da mesa posta, saudade imensa de um sonho de criança do olhar de criança, medo do porvir.
Tem horas que nem a poesia se concretiza (basta olhar pra ela, eu sei, mas ela não está aqui agora) e tudo se faz quase perdido, óperas do passado vem encantar com materialidade tamanha, assombram de verdade, a cozinha, afinal, já há muito ficou pra trás, resta só o desejo de voltar. Vinícius marca minha pele, meu discurso, minha forma inacreditavelmente romântica de amar (até pra mim mesmo é assustadora), nem Duby entenderia minha necessidade de um amor de conto de fadas, medievalmente moderno, carregado de todo o cortejo, desejo, felicidade-para-sempre, contra toda decadência da monogamia ocidental, um amor de emprateleirar na história. Por quantas vezes queimei a boca no café quente, perdi a conta, afinal, café pode queimar, vó já me alertou, mas é só nele que o corpo aquece, descansa e sente bem.
Ladrilhos. Amigos são aqueles que nos abrem os olhos; amores são aqueles que nos fazem fecha-los e ainda assim continuar andando, de mão dada, morrendo de medo dos móveis que podem se jogar suicidamente em nossas frentes, mas ainda assim mais preocupados com os dedos que nos tocam as mãos que com o resto do corpo inteiro que nos pertence. Amigos aconselham à ouvir o coração, contra todo passado, toda topada, todo mal que há de ter marcado, amores nos fazem esquecer de qualquer coisa que se possa lembrar.
Só o cheiro de café existe, torradas na mesa, geleia e manteiga, carinhos de uma cotidianidade metafísica, saudades dos filhos que o futuro trará, o dobrar de lençóis de cama bem cedo, pois o dia se levanta todo dia, "Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa" mas estar de mãos enlaçadas é essencialmente nosso. Vem sentar-te comigo à beira da mesa, hoje o café quem serviu fui eu, amanhã é sua vez, sossegadamente fitemos nosso curso e aprendamos: para qualquer mal, qualquer medo, quaisquer dúvidas, temos um rio a nossa frente, suas águas tudo levam; nosso lugar é na beira, na sombra, só nosso.

4 comentários:

Ellen Joyce disse...

Sua forma-amor é mesmo inacreditável. Está me custando sonhos e alguns muitos floreios internos, vc sabe.
Vc é tão precioso...

Be Lins disse...

Eu não sei oque escrever para que se traduza o que penso sobre esse seu escrito:

_ Nossa! Nossa!

Você existe mesmo?


Insuperável.

Raiza disse...

Lindo, Thiê! Lindo Thiê.

Saulo Moreira disse...

Vc agora foi minha outra Adélia Prado ao som de Milk And Toast And Honey.