quinta-feira, 19 de abril de 2012

un café, s'il vous plaît...

Faltava às mãos a quentura controlada e amornizante da caneca cuidadosamente decorada com uma âncora. Âncoras não são meros detalhes, aliás, amornar é uma palavra tão bonita que faz afundar o peito em conforto, como no sofá de casa, o meu sofá. Eu não vi ser feito, estava, como que por mágica, pronto pra meu toque em cima da mesa quando dei por mim, mas não faz tanta diferença, aquecimento da mão, esquecimento do antes, sentimento que virá depois, tudo isso se tece, se sorve, se vive; ante todos os fatos ainda é essencialmente um café quente, deliciosamente quente, e pronto pro meu corpo.
Ancorei as mãos na caneca e soltei minhas velas, já não quero navegar pela casa sem rumo, penso enquanto passo pelos quadros sobre o sentido da quentura, o que seria o sentir-se quente sem necessariamente entender o que é o frio, tropical como sou, quanto mais quente melhor. Pires, facas, agenda-jornal, papéis riscados (aquele de ontem a noite tão ininteligivelmente rabiscado), tudo isso some diante do cheiro, do calor, da materialidade sentida do calor, se perde... Lembro uma poesia, Pessoa, só ele me bate na cara, me ofusca e eu só penso no sol. O calor que eu sinto é indiscutivelmente, sem metáforas, algo solar.
O desbrilho fraco da luz matinal me toca, era pra ser só mais uma reflexão, só mais um reflexo, só então percebo as semelhanças com a fraqueza luminosa do meu quarto, não me faltam franquezas nas palavras, falta clareza de pensamento (ou eu ainda insisto nisto pra me forçar a pensar e deixar tudo certo), falta um quê Madrigal, faltava tanta coisa, afinal.
O amor não é mais que o café quente antes do nascer do sol, aquele que te tira da cama cedo pra viver mais um dia, faz antes de o dia acordar estar pensando em mais uma forma de aquecer-se, a dormida gostosa de conchinha, o cheiro de corpo que fica lutando contra o banho pra não sair de mim, o banho que me refaz pra receber um beijo e um elogio à meu cheiro de limpo, tantos aromas, toques, detalhes, coisas que no fim das contas são imediatamente esquecidas, coisas que no fim das contas eu não esqueço jamais.
Faltava algo a dizer, sempre esqueço... Não se espante se um dia te convidar pra tomar um café comigo, não sou lá de muitas palavras, acho que não fui feito pra isso, possivelmente lerei algo pra ti (não meu, morro de vergonha), mas lerei algo bonito, com cara de café da manhã, mesmo que seja tarde, vou começar a pensar numa forma de surpreender seus sentidos, todos quantos eu puder, mas acho que isso eu só poderei fazer de manhã cedo, não leve a mal, mas é que pensar em teus encantos me faz lembrar que faltava às mãos a quentura controlada e amornizante da minha caneca cuidadosamente decorada com uma âncora, e não poderia pensar em ti se não fosse no comecinho do dia, sem sol, tomando meu café na varanda, planejando o dia, tecendo, sorvendo e vivendo sua imagem quente (me aquece todo, feito o café) bem cedinho... Ah! perdão, vamos tomar um café?




http://www.youtube.com/watch?v=lezxvDqRk8s

2 comentários:

Ellen Joyce disse...

Eu ñ prometo porque a palavra promessa parece estar casada com a palavra passado.
Vou dizer assim:
Vou me ler pra vc, numa manhã cedinha ou num final de tarde (tanto faz q a luz esteja por vir ou q esteja a morrer). E vou tomar também um café, ñ serve outra coisa pra esse ritual, e há de ser como saberemos... leve.
Sua escrita me desloca para o lugar em que sempre quis estar, perto do coração

Be Lins disse...

Interessante como o café
se faz perfeito para essas prosas e versos recheadas de amor feito torta de amora saída inda agora...

bela pintura
de uma bela manhã.


Beijo, moço!