quinta-feira, 28 de junho de 2012

e o vazio tem gosto ácido
de maçãs verdes
do vinagre pálido
de rosto pálido,
biblioteca cheia
num mundo cego.

cicatriz

céus ensolazulados
e cortinas brancas
dores mais brandas
chá e nudez altiva
canais trocados
a sopa que queima
a língua de lamber
mas não de falar
e dos montes distantes
sonhei roubar a brisa
pra ventar frio eu próprio
quando fosse de manha
e teu olhar fustigasse
em minha memoria
ou na pura imaginação
quiça na saudade
do céu nublacinzentado
refletindo pocas
e cortinas brancas
flores mais cores
dores mais brandas
quaisquer poesias
que marquem, cicatrizes,
a pele

quinta-feira, 21 de junho de 2012

tiro o pó das coisas.
antes que eu fosse menino
e descobrisse azuleza no céu
distante,
do bazar antigo da rua oito
e do sapato verde claro como os olhos,
dos milhares de quilômetros
que já não sinto que passaram,
da vergonha,
de brasília e de recife
do paço alfândega que ainda me sossega,
da saudade infinda,
ergue no peito e brinda
de taças e vinho vagabundo,
dos amigos que não sinto falta,
dos que me doem não ver mais,
dos que me esqueceram,
(e sinto que não conseguiria
fazer um livro que comparasse
à poesia de Vinicius e de Neruda
que sapateiam em meu equilíbrio
com versos calçados
e saltos de marfim salgado)
do Humaitá ao meu quintal
que tanto senti falta quando criança
das lembranças misturadas
com verdades que nem lembrava
e mentiras que quis esquecer,
tiro o pó das coisas e espalho no ar.
nostalgia é muito mais bela
quando em iminência
de queda livre.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

pra ser cozinheiro

I-

e nessa saudade-pena-de-cauda-de-pavão
que me furta a cor dos olhos
e de mesa farta
já me sento em cadeira frouxa
hora balança, hora descansa
da intenção de cair
me dá vontade de cair com ela
não levantar, só de pirraça,
equilibro meu desjeito
em dez mil pés
de profundidade

II-

Decidi fazer-me doceiro.
entenda que a necessidade de cozinhar
geléias
é feito enfiar as mãos na terra depois da chuva
nada pode ser tão miúdo
e tão sujeito
a ser tão grande

III-

derreto os pedaços de chocolate em banho-maria
são uma e vinte da manhã
e a madrugada é terrivelmente doce
imensamente escura
e eu estico com as mãos
sobre a mesa
seu negrume, meu paladar
engolitiva

sábado, 9 de junho de 2012

reza

porque disseram que eu não sei falar de Deus
eu abri a boca imensa e cheia de jardim
pires, cristaleiras e oceano
meu velho forte de travesseiros de quando era criança
a bronca do meu pai que ainda me dói
as areias do quintal
flores do meu beiral
pedaços de amores em carta
pedaços de carta em gaveta,
e o frio que os pés sentem quando pisam ladrilhos de manhã
e me calei.

prestenção, eu me calei,
mas só pra ouvir da noite e das horas que passam
silenciosas
tudo que eu queria saber dizer

sexta-feira, 8 de junho de 2012

bosque e cruz

só resta o cal
branco e pó
contraste rouco na grama bêbada
a queimar mais uma tarde do alto do céu
até horizonte deitado e preguiçoso,
restam as memórias de meus amigos mortos
as histórias que nem sempre eram verdade
as verdades que quase todos duvidávamos.
Lembro que pesar e pena são piegas
sofrer demais é démodé
e justo hoje que tudo é pós-moderno
ele pulveriza em mim suas agonias delicadas
sua dor fantasiada
de coisa bela

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ursa Maior


- Era só pra saber se tá tudo bem aí,
aqui a vida se arrasta
onde tudo é pesar e dança
onde ela dança e ela dança
no ombro leve do corpo pesado
alívio contra todo passado
lembrado
pisoteado numa valsa-tango-mansa
a vida arrasta no chão e não alcança
a paisagem misturada lá no fundo
ergo pilares, altares enquanto o mundo
esquece a dor e a altivez
carrossel colorido, espero a vez
de sentar pra girar na roda
talvez
de sentar pra girar na roda
e ela dança tão bonito
que me cansa de olhar
a vida arrastando no chão
e nela tudo é força
ursa bonita e pesada
imensa
dos abraços retalhantes
de olhos tristes
pero son tan fuertes
hiberna e esquece
o verão logo chega


http://www.youtube.com/watch?v=JSi1SLsIEb0&feature=fvwrel