quinta-feira, 14 de junho de 2012

pra ser cozinheiro

I-

e nessa saudade-pena-de-cauda-de-pavão
que me furta a cor dos olhos
e de mesa farta
já me sento em cadeira frouxa
hora balança, hora descansa
da intenção de cair
me dá vontade de cair com ela
não levantar, só de pirraça,
equilibro meu desjeito
em dez mil pés
de profundidade

II-

Decidi fazer-me doceiro.
entenda que a necessidade de cozinhar
geléias
é feito enfiar as mãos na terra depois da chuva
nada pode ser tão miúdo
e tão sujeito
a ser tão grande

III-

derreto os pedaços de chocolate em banho-maria
são uma e vinte da manhã
e a madrugada é terrivelmente doce
imensamente escura
e eu estico com as mãos
sobre a mesa
seu negrume, meu paladar
engolitiva

Um comentário:

Ellen Joyce disse...

"entenda que a necessidade de cozinhar
geléias
é feito enfiar as mãos na terra depois da chuva
nada pode ser tão miúdo
e tão sujeito
a ser tão grande
(...)

a madrugada é terrivelmente doce
imensamente escura
e eu estico com as mãos
sobre a mesa
seu negrume"

Dá vontade de afundar aqui e esquecer que lá fora existe.
Essa madrugada, essa saudade, esse negrume, tudo mói meu coração de uma dorzinha tão gostosa...