sexta-feira, 24 de agosto de 2012

passagem (...)

dias em que a melhor hora é o banho quente, massagem líquida, pano seco sobre antigas capas de livro, tão pós-moderno, e tudo que eu pensei em te escrever vai sendo lavado por mornidão e Tom Jobim. Era pra ser tudo um grande café da manhã: quentinhos cuscuz e broa e a vida à toa e o sol subindo - à mesa a solta impressão, fotografias, quadros. Dali derrete o relógio de meu pulso e a antiga janela d'onde eu sempre olhei as tempestades se choveu em minha frente. "restam as memórias de meus amigos mortos", sobra sempre um pouco mais de sentimentalismo, falta altura às coisas que dia a dia vão se tornando baixas, menores, perdidas aqui dentro e quando a vida não é suficientemente inteira estala o susto de ter pulado tantas refeições, deixado tantas vezes de amar os amigos, amado em silêncio, prendido os cachorros num dia de chuva pra que não se molhassem, mesmo sabendo que eles adoram, (deixado de amar) e fez-se mofo nos discos sem ter feito nada por preguiça, por sempre deixar pra amanhã tudo o que se tem plena condição de fazer hoje, procrastinar até a procrastinação, amansar tudo com café olhando a janela, com a fé do mundo inteiro imaginar que amanhã será um dia melhor, novas surpresas, novos brincos, novos batons, sem mover um móvel de lugar pra sequer mudar a cara da sala.
sinto que deixar de dar corda no relógio é feito parar o tempo. param os ponteiros e o próprio sol fica preguiçoso, com mais tempo de rolar lá em cima. tempo parado, palavra presa, café aguado, noites sem dormir e a imensa vontade de que a vida pudesse ser inteiramente alguns segundos de alguns momentos, pra ser inteira por algum tempo. (continua...)

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