quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Praia

Camelo e Chico me ajudam
a desfazer o nó de teus dedos
pelo teu corpo
fiz dele meu discurso,
meu texto,
roubastes o sol com a mão
e sabe o quanto me faz falta
a luz
me benzo dentro d'água
pra Iemanjá me beijar
e espero na beira da praia
tuas faltas de caminho
virarem rio

tatuei um leme em teu nome
em tua memória
vou te girar dentro de mim
te arrancar
ou me ancoro
nas tuas ancas
pra naufragar
meus braços teus
teus quartos meus
na areia nossa
que o vento leva

espuma
sem rumo

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

o burburinho aceso
da praça Quincas Berro D'água
apago no chorinho
e nas tatuagens
a conta pendurada
o cumprimento do preto velho que passa
ladrilhos de são Jorge revestem a casa de Amado
a casa do meu pensamento
chove no Pelô,
santa Luzia que me acuda
nos meus olhos tristes
de ouvir Caetano
pra descer a ladeira da montanha
aos trancos e barrancos
arranco do ar os ventos
pra por nos pés e voar
vela solta de barco errante
eu devia ter ouvido vó
e ter virado caxeiro viajante
saudade ia ser o tempo todo
pedaço que eu guardo no pescoço
ao invés de ter virado pescador
e deixado a saudade ser inteiro
um mar tremido
e estampido
nos meus olhos tristes de ouvir Caetano
camisa rasgada e Caetano
sem um puto no bolso
Santa Luzia que me acuda...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

chega uma idade quando nada mais é ridículo,
falarei com estranhos
gritarei em publico
boné e camisa social
tênis sem meia, bigode mal feito
chave de fenda sempre na mão,
pra misturar a cor de minhas roupas que não combinarão,
livros roubados, o rabo de saia onde quase infartarei
quando chegar o tempo de ser ridiculamente alegre e doente,
sentar na calçada e ver a vida que resta
andar sem mim
eu que nunca andei muito bem sozinho
vou querer a sombra de uma amendoeira
lá no parque da boa vista
nas mesinhas de dominó
quando o tempo for chegando,

ainda assim viver o hoje
na fortíssima sensação
de não saber
onde estou indo...

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

feira da ladra

o cheiro de manga espada
e no romper doce-amargo da fina casca da jabuticaba
negra, aparece a noite doce
e suas compotas, ou licor.
teus olhos cheios
balaio de frutas verdes
cheios de Deus e algo mais que há
perdidos no jardim,
a falta de fé.
a banca de fruta
pega na dor
na dor que as vezes nem corpo tem
e areia que na pêra faz da minha boca um oceano
incensa pra longe as nuvens
afago cores
afano romãs e corpos.
o sol ignora a banca
e queima a sombra
os seres que vivem nela.
maçãs mordidas de Hilda,
masco os pedaços azedinhos
de alho em mãos e espada de são Jorge
mastigo quebrantos
vendo frutas
pois o dia fica belo
quando não penso
é dia de sol que queima as sombras
de dentro dos meus olhos
na feira de são Joaquim
mercado central
de dentro
do centro
de frutas