sexta-feira, 30 de novembro de 2012

limão e mel

do delicado fazer do chá
enquanto vó fala da família
antiga
água ferve e esquenta a vida
saias, quadros e a radiola
meu bisavô e um trolley
acertam o minuto do limão
exato momento de derramar o mel
derreter sabores na xícara
aquecer o dia
como quando olho a janela
o sol cortinando em minha vista
balança com o vento
sobre o mundo

terça-feira, 27 de novembro de 2012

thiê

feito passarinho
numa manhã bem bonita
a beleza lá em baixo
do alto do ninho
vi a beleza da queda
e o bater de asas
minhas asas anti-gravidade
ante tudo que brilha, tudo reluz
a beleza lá em baixo
foi testemunha
de que nao sei
voar

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

da entrega

da entrega
dos grossos traços
do quase choro
mãos e cabelos
faca pulsante na jugular
artista é na vida
aquele que grita
no silêncio dos sentidos
desnudos
quando tudo é violino
piano e vinho traficado
má depilação
da intolerância do mundo
da Iugoslávia
meus amigos assassinados
e da vontade de ser mais
dono de minhas vontades
de suas vontades
nunca mais me vestir
das razões de um olhar
ser queer
mesmo que sem querer
sem inscrições, sem rabo de cavalo nem colar de pérolas

sábado, 17 de novembro de 2012

Emy

aceso
sinto falta da noite
sóbria
sinto falta da noite
falta sempre um pouco mais
de noite
acesos
meus sentidos apóiam
o universo em seus ombros
o universo
aceso
na noite
falta
sempre um pouco mais de
universo

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Excertos de viagem

(ainda nao corrigido, sem pontuacao)


I-

das tuas pracas cheias
dos amores perdidos
tuas gentes
meio-fio, meio lugar
pedacos de chuva e calor
das formas que eu achei
em meio a tantas outras
sorrisos quentes, cabelos
alto-falantes e emergencias
flores brutas
amores cegos
e de quase toda sacada portuguesa
que pude tocar com meus olhos
meus aneis de caveira
minha cozinha muda

II-

guardei nos olhos o suor que te escorria, suave, e pedi que a pele desejasse saber o sabor de tuas maos, teus oculos dourados, tuas imagens de pessoa, telefones antigos e a varanda da fazenda

III-

do sorriso desfeito imediato
da aspereza no olhar
a simpatia
e a falta de beijos
das promessas que o santo nunca cobrou
mentiras esquecidas
minha surdez
o que nao ouvi, nem me importei
falta habilidade no andar
as pequenas imensidoes
das vontades e explicacoes
teus lugares e a falta de espaco
tua cor
ceu calor
da saudade de duda
de Saulo, de Be
dos desencontros
nos quais me acho
onde sorrio de canto
por ser meu unico jeito de sorrir

sábado, 10 de novembro de 2012

Manáos

o céu ameaça despencar. olho ininterruptamente o rastro de luz que escapa da porta, tua sombra nao cruza meus olhos, a anunciação de sua presença escapa às minhas unhas. tempestade ou não, tempestade brinca no calor, esquentam em mim todos os sentidos, escapa às minhas unhas teu cabelo imenso, as iluminações espantosas no céu, ameaça desabar... sinto uma estranha vontade de cozinhar pra ti, misturar teu cheiro nos meus temperos, brincar na tua boca, te cuidar por um dia que fosse, fingir que te amo, pretender um futuro, desabar quando o céu cair e virar rio que corre pra longe de manhã...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cáceres y Cayetano

sufocam as varandas ensolaradas das ruínas delicadas em que pusestes teus olhos, e no fim do dia o próprio sol vem descansar. há de passar. demônios de minhas vontades, geniosos cacos de minha concretude espalhada pelos tapetes, acima de mim só o Equador e vapores. teus cabelos brincam nos meus suspiros. balas! e a vida fica muito mais doce quando teus cabelos brincam nos meus pelos, cárceres, fronteiras das nossas lonjuras. dizes em voz alta da alma feminina que em mim habita, alma de gente, replico, gente que é antes de tudo gente e precisa um tanto mais de gente e de seus cabelos, seu sorriso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Floating

ser abstrato
é que dói tanto
ser
barbudinho, assim,
dói em mim
que o mundo seja
tão concreto
tão perdido
querendo que eu perca
meu trato
assim que eu achei
ser melhor pra mim
ou o mundo
dói em mim
ou dói tanto no mundo
meio cego
meio velho
bem no meio
de mim, dói um tanto assim
ser abstrato
só sei ser
"só sei viver mesmo
se for no samba"
sei ser
assim, barbudinho
doce
pra vida ficar doce
pro mundo nao coalhar
me diz, tuyo,
que eu faço?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Feriado

entre, sente, pente e cabeceira
já fui thiê, thiago, amor,
thi, careca, tatuado, vagabundo
viado, bonitinho ou meu bem,
o mascarado da Mayra
o doce do Saulo
o esquecido de meus pais
caneta, papel, xerox e conjuntivite
chá
chá de cidreira pra o sol descer mansinho
pra Saulo lembrar de mim no verão,
pra duda me amar
preu amar duda cada dia mais
e todo dia ser dia de thiê
pão quente e suco
curry, azeite, alecrim e pimenta
Saulo, seu sorriso parece frô pequena
frô e cuidado
nada desimporta
despedaços, vidros
criados feito gente
fogo de Nero adentro
acresce a vontade de brilhar
incêndio imenso
na pele pista de dança
teus dedos sapateiam
entre cacos e os perigos
de corte

é corte estendida
sem platéia
assim, sem corte
caço cacos e ignoro