domingo, 29 de dezembro de 2013

sou eu
quem dou um passo a frente
em todo deja vu 
so pra ver
o futuro
ser meu

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

axé

triste de quem 
falsa além 
e por via das dúvidas 
se ajeita assim
vidro quebrado
por cima da cabeceira
da mesa de centro
de café 
buscando em outro orixá
um pouco de qualquer
sentido
ou axé.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

aquela angústia destilada
ate desfaz segredos
guardados.
contemplação máxima do vazio.
um mês,
três dias
e alguns nadas.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

café

quis perder aquela mania boba
de ver amor em todas as coisas.
se soubesse 
que até
o café
esfriava,
não dava,
não pedia.
só pensava 
pelo dia
no momento que não lembro
transbordado.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

cubo

não tem romance
que alcance
além do frio
cabe na palma da mão
gelado coração
que queima
abaixo
encaixo
no freezer.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

mandala

o enfeite
da alma
pros olhos,
a prova
sutil
do pra sempre
e sempre
efêmero
quase nunca
falha.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

tomada 51

cinquenta sets de gravação
e o imaginário cinema
da minha cabeça,
quando não tenho
nada a te dizer. 
meu silêncio
tem defeitos
especiais.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

três e meio

passou por perto de mim com as suas mãos
e Deus.
um
dois
três ansiolíticos, wagner e desresponsabilidades
habitam o nada
que eu criei
pra cobrir de qualquer jeito
o vazio
que transborda.
era pra ser poesia,
mas perdi o jeito
de ser sincero
sem ser cruel.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

fita

aprendi a costurar,
tratar carne, 
passar roupa,
a saber parar
e separar as partes
quando for pouco.
enfeito o coração com um fita e laço.
atrevo um vôo,
não dou um passo.

domingo, 8 de setembro de 2013

foi

teu silêncio
faz eco
onde eu quis te fazer minha.
paro, mudo, passeio 
qualquer alguns segundos.
fantástica fantasia
do haveria.
quando eu quis que tudo fosse
já não nunca.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

desmantelo

se me foca 
pássaro
passa tudo
e me retina

a vida vai
se pondo

quando 
onde
como

taquiardia
da pupila

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

sunny message

vai chegar o dia de por a mesa, acordar bem cedo pra por a mesa. eu vou cozinhar com gosto, gosto e sabor, geléias, café, suspiro, e o sol nascendo, todo mundo acordando, a casa linda, o jardim mais lindo ainda. e vai dar gosto lhe ver acordar, sentar em minha mesa posta e sorrir. 
o dia passará entre almoço, cozinha, sala, filmes, música e roupas pequenas costuradas na mão. de tarde seus cabelos viram ouro, nós dois na varanda, você reluz o mundo do meu lado, e tudo que eu engasguei por tanto tempo, tudo que um dia fingimos não sentir se desfará. quebraremos o relógio por um dia, vou tocar piano até anoitecer, por sua mesa de jantar e depois dormir. nem tudo rima, nem tudo faz sentido. te sentir ultrapassa  qualquer razão. vou mostrar aos poucos tudo que escrevi escondido, explicar porque por tanto tempo tudo foi tão triste, sentirei saudades da Bahia, mas como quem esquece, como quem ama. perderam-se todos nos vãos que o tempo cria, ninguém compreenderá o tempo que é só nosso. eu cansei de jogar garrafas no mar, quero ser lido. cansei de pensar em poesia, vou ser mar, ser ar, ser, quiça, um pedaço inteiro de você, ter um colo pra descansar, sorrir pro passado, sublimar, 

sábado, 17 de agosto de 2013

amoremim

é tudo dia
depois que passa
três quartos brancos
duas margarinas
cinco varandas
e muitos livros
sobre o passado:
ter encontrado
aquele riso,
da cor da noite,
passou também.

de samba em bamba
tropeço os dias
ajeito pernas
sapatos
meias,
meios 
segundos feios,

quisera nada rimasse
e ela sem que nem pra que
descobrisse
amor
em mim.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

meio sono

ao olhar
não há;
passa o tempo
e ela se tatua
com meus dedos,
sai de casa doida
varrida
diz que na noite
é que se tem vida,
volta partida
rasgada
sofrida,
e na madrugada
poe na mesa da minha copa
café bem quente,
biscoito, louça 
e coração.

sábado, 27 de julho de 2013

gelo

me atravessa frio
imenso,
dos embrulhos no estômago
ao bater de dentes,
paralizo e desconfio:
era amor,
aquilo tudo que me cortava
por entre as roupas,
mas era 
só 
o vento

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ei, Carlos.

e nessa coisa toda
de viver
elegendo cicatrizes,
perfeições e idolatrias,
(traços do corpo, roupa
onde pisar, quem pisar)
e na falta da coisa
toda
que me recorde
eu deixo esquecer
amores
serão
sempre
amaro. 



sábado, 20 de julho de 2013

pra que porque?

teus olhos,
vomito flores
vinho
(uma praia no caribe
chove)
sacrifico meus poros
e eles fumam porentremim 
esfumaço papeis 
e tua presença,
nerudesca baleia sonolenta
lenta
tua boca me beija
pra que?

terça-feira, 16 de julho de 2013

domingo, 14 de julho de 2013

ciranda

liguei ou pensei
em dizer:
te livro do mal
que você me fez.
amanhã não há
noves fora dentro
o mundo é só
fantasia.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

pas du sense

tentei evitar,
mas tudo é muito raro,
vive, solta...
justo assim
já não sabia
que tinha volta.

terça-feira, 9 de julho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

Chandon

medo de cortar seus vestidos.
vão lhe caber
como só minhas mãos poderiam saber
fazer
em teu corpo.

solto

a praça é cheia todos os fins de semana.  tudo faz sentido, não sei seu olhar, queria conchar um mar de algodão entre qualquer pedaço meu e seu do mundo. ela boxixa, gargareja, escandaliza, a praça comigo dentro, penso em ir ali comer uma torta doce, passar o tempo na doceria do canto e beira, mas fico no meio, meio-amargo e coberto de avelãs, reduzindo sabores ao puro momento de um giro inteiro de catavento. 

mãe

todo mar é parado.
suas velas dormem,
pandas,
e a areia não pega
o vento pelo rabo,
acabo 
por lembrar:
herdei dela
aquele brilho
que me apaga
em cada olhar.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

pires

repleta e vazia
vai.

acostumada
abismamento menor
das improfundas lamentações,
o gozo baixo
perdido nos pires
e na cristaleira

tudo é um eterno
por partir
ser
e trincar.

domingo, 30 de junho de 2013

fix you

feito janela
antiga da casa antiga
de vitral,
partido, é lindo de ver,
coração...
mas não presta, não.

passa poeira,
e lá dentro
nada reluz.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

seria

Adélia diria
do nosso amor
perdido
que só Deus.
dos olhos seus,
voz rouca
de quase toda
muito pouca
e qualquer,
sequer
começou

domingo, 16 de junho de 2013

puxadinho

e a solidão de voltar pra casa 
linda, bem arrumada
cozinha limpa
pano de prato,
grama, cachorro
varanda e quintal
com roupa no varal
e um tanto por quarar,
e falta o doce
de ter alguem
pra pensar.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

meus

vou assim
cuidando dos meus
e quando dói
cuido dos meus
cuidam de mim,
o resto
é rastro,
o vento apaga
ou tempo
ou vaga

sábado, 8 de junho de 2013

god put a smile upon my face

pedir um amor pra vida inteira
devia ser
dever.
de vez, não dá.
depois
não há,
e a vida inteira
vai ficando
cada vez menor,
inteira
de vazios.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

íris

fazia tempo...
o desconserto
feito aperto
na retina,
abraça o peito
quase um beijo
ia se perdendo
sorrindo
crescendo

domingo, 2 de junho de 2013

cartomante

se pela manhã
meias, camisas, nublado,
chove meio dia

rua, fones, calor
recife faz falta
brasília também,
tem gente
que nem tanto,
quanto tempo tem
desde que eu passei?
que eu passei...

começo correndo
calçadas, corredor
e a dor vai passando
correndo, pisando,
sapatos, meias, bacias
é domingo e eu ainda
penso nela.

tantos eu
quanto você,
não queremos mais sentir
ar condicionado
pouco do pouco que é dado,
ou faz sol
ou é sol
meu sol em touro
é só mais um poema
que eu te direi.

amarração

deixa eu bater remo
n'água,
mágoa
nao dura pra sempre.

sem saudade no meu cais
dura
pura
pedra pontuda que vejo distante

solta minha mão,
ou vem remar comigo.

sábado, 1 de junho de 2013

paisagismo

tem gente
feito jasmin
enfeitando jardins
no frio
ou quente
que o ano embola.

queria mesmo era um chá
de violeta.
seria eu,
meus olhos tristes,
e tudo enraizado 
tronquificado 
sofrendo distâncias
despetalando segundos.

terça-feira, 28 de maio de 2013

wishlist

olha, moça, é só compromisso, aquela coisa bonita de ser feliz pra sempre...
simples, nada muito complicado. ter a certeza de que se ama, viver num apartamento lindinho, decorado por quatro mãos, desde o tapete da sala ao espelho do banheiro, dividir as contas, as chaves, alguns pijamas, talvez, e quem sabe ver os cabelos ficarem brancos e fazer piada disso. criar um cachorro troncudo e meio lerdinho, poder levar pra praia no domingo bem cedo, sair pouco, reunir muito os amigos, cozinhar delicias, beber e não se importar com a bagunça na mesa de centro, um beijo de bom dia todo santo dia. sair pra trabalhar querendo trepar de novo de manhã, voltar mais cedo do trabalho e encontrar tudo bagunçado, ela na sala pintando algo, fotografando da janela pra fora, escrevendo no sofá, bagunçada, cabelo bagunçado, sorriso imenso. acordar e não sentir o peso na cama, ter o dia só pra pensar nela de vez em quando, araras de roupa, visitar os pais no feriado, viajar e brigar pelas malas, esperar da vida sempre um pouco mais de manhãs bonitas, esperar um filho, a encomenda do exterior, carta dos amigos, amigos viajantes, tomar um banho de mar e molhar todas as nossas tatuagens juntas, deitar a pele queimada de sol no lençol branco.
era só silêncio, se entender em silêncio, se entender nas escolhas, músicas e filmes escolhidos, ir no cinema e dividir a pipoca, receber elogios sem merecer, ter a paz de ter alguém.
"nasci pra amar e pra morrer", ouvir meu jazz, vestir boas roupas, beber bom vinho, bom uísque, ter uma mão pra segurar...

segunda-feira, 27 de maio de 2013

doce

me trouxeste
taça e vinho
ferro de marcar e brasa
veia adentro.
e de tanto buscar consolo
nas tuas coxas
moças, 
farmácia ou botequim,
onde eu crio os monstros
-meus amados-
fiquei por lá.
bem nascido
nem criado
bem perdido,
eu e eles todos, eles muitos
horizontalizados monstros;
nos sustentam,
nossa necessidade de viver no escuro
olhar de longe
caçar pensamentos em curta-metragens
dormir ou apagar,
nossa necessidade
de viver chapado,
não há consolo em tuas coxas
nenhuma outra
aninhará

sexo

teus dedos
cacos de vidro
vem brilhando no ar
prismando olhos
retina
gloriosa
retina
e me rasgam
de perto,
estranha.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

sinus amoris

falta um amor pra declarar
tudo por fazer,
deixo sempre
quase tudo a perder
deixo vazar os olhos
na beira dos cílios dela
as mil direções
dos quadros
quadrados
molduras outras
de minha sala
assimetria
e maré cheia
escoa de mim;
rostos que não conheço
na beira dos cílios dela,
não conheço.

caetano falta
tudo por fazer,
e terminar pra que?
a vida é praia
sobe e desce maré
para delírio no convés
ao invés
de ser tudo Caê
é sempre tudo
tudo em minha vida
por fazer.

precipício ela, era ela
era pouco
era vela.
ela panda,
branda cor
tempo, dor
demais dela
ficou.

tom pastel
Caê, coca-cola
e a perdida impressão de estar sempre errado

terça-feira, 21 de maio de 2013

pão de trigo

hoje é dia de acender vela
na casa grande.
nao fala
sorri pouco, nao queima os dedos no fogo
cozinha
na cozinha de silêncio
e aroma.

no quintal de acender vela
aprendi a ser pequeno
a vida toda.

agradecer o pai
que ensina a ser bom
ser bem
bem maior,
cozinha com silêncio.

leva tempo pra aprender 
pra engolir
silêncio nas coisas,
tudo plange 
tudo bege
na cozinha
e a noite espera
a noite toda
olhando pro céu
de onde sai o dia
e o cheiro da massa
pronta de véspera.

viver é vesperar
silente
na beira do fogo
do cheiro ir pro ar
e acender vela
ascender...

domingo, 12 de maio de 2013

correvento

tuas varandas
arejadeiras 
de cordas em bordas.

- a gente não vai contra o vento,
acostuma...
redizia assobiado
tilintando partículas
de nós
o mensageiro,
pendurado nas vigas de Ipê.


sábado, 11 de maio de 2013

susto

       "tudo claro
ainda não era o dia
           era apenas o raio"

Leminski, P.
 

ver por cima do muro,
do tempo:
o amanhã é nada.
é tudo agora
e a gente vai assim
fazendo minutos
tecendo segundos
cozinhando as horas
e então
tudo passou.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Carta pra Bê

(já que ela descaradamente não me dá a chance de enviar por correio) <-- (isso é um subtitulo, só não quis estragar o post)

Olhe, moça, bem vou lhe dizer que uma garrafa de vinho era tudo que eu precisava, mas eu mentiria...
Desde pequeno eu admirava um livro bonito e grande que minha mãe me dava pra ler, falava ele das estações do ano, eu admirava e lia quase sempre. Outono me persegue onde quer que eu vá, sou de maio do hemisfério sul, nasci numa noite meio chuvosa e com muito vento soprando nas amendoeiras de um bairro central, venta forte dentro de mim até hoje. Não creio que sejamos todos determinados por nascimento, mas convenhamos: sou taurino e outonal, meu ascendente e minha lua sao de ar, não posso fazer nada pra mudar... não quero fazer nada pra mudar.
Hoje depois de muito tempo sai de casa e fui pra bem longe, creio que tenho tendências a cinegrafista, fui e voltei fazendo filmes com as pessoas que passavam, meus passos, muros grafitados, pontos de onibus cheios, depois vazios, tudo passava nas minhas amêndoas oculares, nada muito lindo, tudo muito tudo, quase nada eu.
Escrevi sobre muita mulher, poucos amigos, alguns parentes, sobre quem eu queria ser. Escrevi bêbado, drogado, sóbrio, doente e são, nunca consegui parar de escrever, nunca mesmo. Essa semana fui surpreendido por uma foto, tatuaram parte de uma poesia minha, e me dei conta que eu estou na pele de alguém. Eu estou na pele de alguém. Não alguém indefinido, é mais que qualquer um, mais que qualquer uma, e eu estou na sua pele. Engraçado como só uma tatuagem, metafora de chico, metafora de tantos outros na vida, me fez entender que eu posso estar em outra pessoa sem necessariamente saber o que, porque ou como me marquei. Somos mais que vento, somos ferro em brasa açoitando o mundo com palavras doces.
Olhe, moça, eu cansei de esperar suas cartas, não com mágoa, mas com ansiedade, envio por via deste único meio minha cartinha. Eu queria ter uma garrafa e uma rolha, um oceano e muito mais fé no destino, mas espero que isso assim, aquariano tecnológico como meu ascendente, lhe cause boa impressão. Seus escritos vem sempre em boa hora, nesse balanço dos minutos, que seja assim em retorno e gratidão.

Thiê

P.S. - sei que tenho sido malcriado com o amor, mas tem sido difícil lidar, eu estive enganado todo esse tempo, aqui vai uma revelação: existe gente realmente ruim nesse mundo. "=O" (o rostinho foi só pra enfatizar meu espanto).

sábado, 27 de abril de 2013

paladar

às bocas despreparadas:
após primeiro amargo
amor perde gosto
nem parece amor
nunca tão doce;
resta língua, anestesia,
melhor buscar
outros sentidos
pra o mundo.

todavia

não sei falar de amor. não sei falar de futuro, vida à dois, falar de sorte, falar de morte, da maioria de meus pouquíssimos e bons amigos. não sei falar da minha vontade de ir embora, de cafuné quando fico doente, aprender mais uma língua, ser um cozinheiro gourmet e sempre inventar receitas. não sei. não sei sequer se sou boa pessoa, namorado que preste, filho decente, amigo presente, gente que faz falta. não sei falar poesia, poesia dos outros é sempre melhor, não recito, prefiro receita, queria tanto uma receita, escrever ou cozinhar às cegas não dá. não sei falar, mas que mal há?
poesia
da rotina
é silencio

quinta-feira, 25 de abril de 2013

candy

I want the lights of Paris.
- tenho querido, apaixonado por uma fantasia, um jazz perdido, tenho realmente querido muito um pouco mais de luz.
-tem chovido bastante, tempo de limpar os calçados, cortar os cabelos, ouvir mais música, visitar os amigos e passar tardes sem muitos propósitos.
- L-u-z! please, eu ando meio cansado até do meu português bem falado, tão pouco me serve. tudo começou quando faltou luz no meu quarto há alguns anos atrás, de lá pra cá tudo desandou, venho tropeçando, esperando já ter nadado o atlântico sem conseguir mover um pedaço de minhas vontades. quero as luzes de Paris aqui.
-quero Lays, Mariele e Igor que foram embora. quero Ramon, Iuri e tantos outros que estão por ir, quero um pouco de paz. a paz de sentar em uma casa de mel e ver o sol nascer, iluminar as compotas e tudo caramelizar na minha vida, cansei do meio-amargo, do meio amargo, do azedo, luz e doce, s'il vous plaît.
-um filme cretino, uma noite mal dormida de conchinha, desconforto de braços dormentes e cabelo na cara, um cigarro pra apagar qualquer idéia, tenho querido tanto e tanto quanto tenho querido, vejo brotar no seu jardim margaridas.
-um pouco mais de Saulo, Tuyu, Bê; sinto saudades, mandarei cartas quando der vontade, tem chovido, feito dias de mandar carta e acender vela, dias de não pensar nela, essa falta das coisas pequenas que me dá todo dia.
-é bom ver qualquer dia ser mais um, fancy clothes, demi-sec brut, champagne, maconha e meia noite. tem faltado luz, afinal. tem cortado o doce.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Barra

dordecabeça,
não fode,
me deixa.

as luzes baixas, postes, ruas iluminadas no meio da noite, os prédios dormem, quase se deitam uns nos outros, a cidade cobre, a rua brilha, o décimo quinto andar observa tudo isso como um por do sol. meu apartamento finge dormir, todo apagado, eu continuo na janela, dor de cabeça, tylenol, água, banho, calor, sem roupa e o uísque da desistência, inútil imaginar o sono da cidade, dói, eu mesmo não durmo.
subi a ladeira apanhando, Bê, acredite. "ah, bem melhor seria poder viver em paz, sem ter que sofrer, sem ter que chorar, sem ter que querer, sem ter que se dar" e Powell vem sambando de fininho, sorriso no rosto, não sorrio, nem ele no fundo, é tudo muito samba de morro, e a gente vai assim sorrindomorrendo um pouquinho, subindo bebinho, com cara de descendo, sem saber ao certo em que pedaço do espaço a gente tem lugar pra pisar mais forte um pouco, fingir que é gente, que nunca na vida inteira doeu o coração.
dorme a cidade toda, aqui, dorme tanta coisa em mim, e quem acorda?
não há remédio pra dor de coração ou tédio.

sábado, 13 de abril de 2013

london

era
eu esse
pedaço
era
pouco
muito pouco
espaço
ao passo
que tudo
passa
acho
graça
acho
que só
uma taça
de champagne
um livro de Adélia
amor perdido
um tiro na mesa
e nenhuma rima
nenhuma fina
fumaça
passa

terça-feira, 26 de março de 2013

amor...

amor, amor,
não vale a pena
bater asa
pra fora de casa
quando a noite cai.
lá no quintal
tanque, pedra e varal
das penas que pendurou,
tuas roupas,
essas muito poucas,
aquele meu vestido;
pousam no sofá
esperando passar
toda a sua dor.

quinta-feira, 21 de março de 2013

absentee

a superfície laminada reflete a luz de cima, cima de mim, não é a minha luz, ou a de qualquer coisa que me rodeie, só uma luz acima. o almoço desceu atravessado, talvez devesse só ter bebido, minha ridícula alergia à melancia, nem faz tanto sentido assim, azia e refluxo, inércia, a cadeira nem é confortável, mas não consigo levantar. passam-se dias de não movimento, nem os dias passam, parados, eu e eles.
é triste a situação da mariposa, é a quinta que vejo cair aqui perto por chegar muito próxima da luz. estúpidas bichinhas tão humanas. não me levanto, assopro as asas de uma delas pra longe do meu alcance, não quero sequer ter parte em qualquer parte desses desejos de imensidão. mesa vagabunda com lamina clarinha, cadeira opaca, ladrilhos floridos, armário pago no boleto, nem um real a menos, meu chá esfria lá atrás. morro por dentro.
falta talento pra escrever um bilhete suicida, falta talento pra falar da vida. tatuarei uma mariposa um dia, vou me levantar daqui e escrever na parede "MARIPOSA", vestir uma camisa cheia delas, até minha cadelinha vai chamar mariposa, essas coisinhas sem graça, sem talento pra borboleta, sem nem uma cor que preste, cabeludinhas, estranhas, noturnas, estúpidas e que invariavelmente tem a coragem de se queimar na luz dos outros, sabe Deus, porque, na luz dos outros, onde a luz cega, mata, enche de vida o que era só uma mesa vagabunda, um chá frio. não nasci pra borboleta.

domingo, 17 de março de 2013

domingo

qualquer domingo desse
lhe chamo de surpresa
pra comer comigo
comidinha requentada,
tomar uma cerveja
ouvir Nelson Gonçalves
pisar no chão com a segurança nos pés
dos anos sessenta,
se perder na tarde
enquanto nada é tarde
e da janela
meio jardim
meio afim.

domingo, 10 de março de 2013

manhã

eu sei, bê, decepcionei.
a cidade engole tudo
daqui de cima, são quinze andares,
eu vejo o mar
eu vejo horizontes móveis
eu vejo móveis voarem altura abaixo,
sou tão cego...

Saulo me chamou pra escrever um livro
sobre delicadeza,
que sei eu?
anfetaminado
sinto desejos diante o espelho
reflito os traços no meu corpo
o porto da barra
continua ali

só,
bato minhas ondas na praia
sem sequer banhista desnudo
ou vestido que estivesse
passa um barco
e não sou eu.

revolvo correntes
por dentro de mim
encharco as areias
por pura
e completa
vaidade,
netuno de um copo,
imenso, só eu vejo.

falta verso que faça entender o universo
falta verso
e sobra verão
soberba
minha barba
muitas bocas
poucas palavras

sábado, 9 de março de 2013

ventilador

mal ventila, mal enxergo,
brinco de bem-me-quer nas luzes que passam
é nove de março, verão e calor a pino
sem águas de despedida,
na meia noite que não passa,
eu e milhões de outros por aí
estamos só.

não há sequer
um telefone tocando
casal trepando
(minhas mãos contam luzes)
(perco a conta, bem ou mal)
desfiz-me das roupas, o corpo ficou.

mandei carta sem destino
nem data de chegar
nem sequer paguei as taxas,
qualquer dia eu descubro
onde é que foi parar
minha poesia

meu pieguismo
é culpa

meu alcoolismo
é só mais um alcoolismo
mais uma garrafa
e a minha incompetência até em ficar bêbado
resignado

quinta-feira, 7 de março de 2013

babes

eu preciso de abraços
hoje
de seus braços
imensos tentáculos de monstro
me abraçam e sou monstro, por fim.
por via de fatos
meus amigos são gays
se drogam
e dançam all night long
são meus
"I'm doing everything right, why nothing happens, bitch?"
cocorosie, bon iver, vinho bom, banheira e uno más
meus soltos tentáculos
e meus amores, todos eles
"I'm a motherfucking monster"
eu sempre cozinho
sirvo
e lavo,
corro,
vejo,
abraço,
sofro homofobias, dessincronias, tapa na cara,
my bitches,
(champanhe, uisque, putas de luxo e apego inseguro)
meu sorriso
é muito maior
com todos eles

sábado, 2 de março de 2013

salvo

eu estava pronto
pra viver alcoolizado,
em outro continente,
assim, meio descontente
sim e não do seu lado,

ou o que era o lado?
oposto do bom gosto
perfeito senso estético
fraqueza de espirito
espelho sem rosto
desbrilho enfeitado
caveiras
vaidade da alma
que não cabe na palma
da mão que eu perdi.

faz dias que é assim mesmo,
más impressões e café frio
tem em toda mesa.

ainda bebo, entenda,
ou não entenda, tanto faz,
fico assim meio blasée
quando é tarde
pra qualquer
reação;
é, e eu perdi a mão,
descansei de segurar garrafas,
joguei as roupas fora,
a pintura de Calazans
rezei pra muito Orixá,
o amor
virá
a foguete.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

saltador

e todo o dia triste
ia lá
afogava pensamentos
sem boias, nem pena.

os cachos soltos da moça que passa
abrigo de páginas
e seus olhos verdes,
uma terra descansada.

fitarei
a poesia
esvanecer:
lá tudo
acontece

corrida das horas
repouso dos pés
no plano
que feito o chão
vai ficando pra trás

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

efim

sou novo
de
novo

passa tudo quanto passa e nada fica
dos caminhos mal percorridos
dos tropeços
nem as unhas
do pé sujo de barro
mantive
cortei os pés
agora
meu negócio
é
voar

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

qualquer carta

cantei amores que não há,
brilhei ladrilhos opacos
lustrei a mesa de cortiça,
e quando tudo desmoronava em silêncio,
tive esperança.
matéria dos tolos, esse prendimento
contentamento
consternação irascível
contra a parede maciça,
sobram rosto, mãos, ombros, tudo machucado,
feito batida de carro,
mas nada muda,
não adianta bater contra parede,
que hei de fazer então, Saulo?
o telefone não toca e o silêncio rasga,
não toca,
e eu queria estar falando do amor dos outros
escrevendo qualquer carta
vendendo laranjas na beira da estrada,
mas cantei amores que não há,
o que fazer quando o brinquedo é quebrado?
o brinquedo quebrado,
brinquedo quebrado;
brinco de pérolas
de olhar nuvem
de ver o tempo
passar

-alô?

disse que tinha um compromisso hoje cedo.
não falou sobre.
me acordou e era engano.
era Pedro
que amava Daniel que mora em Frankfurt
quadrilha de Carlinhos enquanto
sambo no meio da cidade.
era engano.
muro e engano sem tinta pra se pintar
era sua mão cheia de dedos
e sua bipolaridade.
era eu que amava ela
que ama tecnologia, horóscopos, moda e seriado.
era passado
que ama lembrança
sua mão cheia de dedos não me tocam
(não sou touchscreen)
era Caetano
e era engano.
em Santo Amaro existem flechas negras
é sempre eu tentando
não sentir o peso
do seu sorriso frio
que me castiga, vezes paralisa
meu sorriso
por engano.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Amaro

monólito desgovernado
me amarro em sua fronte
rolando montanha abaixo
calado.
Amaro, amar é deveras torto
morto
seixo de praia perdido nas águas,
remédios, misturas e lucidez
embriaguez de vinho pobre,
ressaca de março em plena terça feira.
quando o estômago dói faminto,
sedento, em guerra com o resto do corpo,
é a doçura insustentável
da indiferença indiscreta
e escandalosa
os segundos que torturam o relógio
ausente
o veneno vagaroso
irretornável invomitável
descendo pedra precipitada no abismo
rasgando o vento do oco
bate no fundo seco
salino
onde já foi mar

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

timmer

Olinda despeja
ladeiras do alto
pra baixo e cima
calorimenso
minha carne é
de carnaval
meu coração
cinza e quarta;
bahia
rio, pernambuco
o raio que o parta

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

thiê

teu olho
acende a manhã
na pupila

meu olho
brilha
cacos de vidro ao sol
bola de gude perdida na grama

a tarde levanta vôo nas asas de um pássaro qualquer,
sem nome, minhas asas.
padeço do mal das tardes que vão
anoiteço um pouco a cada dia
sem aprender a voar.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

issoemmimpassa

a banda brinca de lá da janela
pro outro lado
que não sou eu, é carnaval.
aqui me doem articulações
falta de tempo
olhos fechados
álcool demais
e o resto todo de menos.
gente que não sei ser feliz
issoemmimpassa
mas como dói,
em mim passa,
há de passar.
tenho atrevido
até a dizer
que desaprendi
a dançar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ameaça de morte

perco a mão;
não na cozinha,
asfixia e
poesia,
perco a mão
no tapa que a cara pede
quando tudo que eu sei
é dar carinho.

1 de fevereiro

gil cava um buraco no chão
do meu peito
enterro os pés
sem saber ao certo
o efeito
faria tão perto
qualquer toque
mais carinho
mas um pouco
eu sozinho

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

girassol

almejo o sol
tão ardentemente,
escureço por rotação
o resto de minha vida.

o giro cego
e o monstro da perfeição,
não aprendi a chorar.

amaro

infeliz hora
em que ao sentir o amargo da boca,
engoli...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

tamarindo

desfizestes o azedo ruim-delicioso
do tamarindo de minha tenra infância.
amargo, azedo a falta de doces
falta de geléias, a falta.
(e um poema de amor ruim de Drummond,
prazeres remediados,
mergulhos no mar sozinho)

domingo, 27 de janeiro de 2013

cinco cortes

e para quem tem do coração
as contas em dia,
aquele abraço.
que chegue quente
feito abraço
mande uma carta
um embaraço,

apague a luz
ao sair.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

resvala

e quando não há
the perfect expression
23% de desconto
ou um café expresso
pra reafirmar
toda noite?
(dessas noites burras)
(das escolhas burras)
toda noite eu fico um pouco
assim
sem sexo aparente
-e o que é que a gente tá fazendo aqui?
falta vontade
tem faltado.
quase justifico
as contas de orixá em minha parede
por fé,
deveras, não há saída
tudo era só vontade
do meu telefone tocar em cinco minutos
preu ouvir do teu amor,
não há
saída

sábado, 19 de janeiro de 2013

amaro

de manhã cedo
espero a tarde
e anoiteço
as branduras do café quentinho,
espero junho
e uma fogueira,
Lisboa,
não amanhece há dias
tudo é cortina puxada a toa
janela de vidro fosco
onde não há
claridade.
mas é claro, Saulo,
eu nunca havia amado amaro,
lembra uns chás, ou não,
uns assobios,
felicidade súbita, salto de paraquedas
deitar no sofá depois de uma noite de quase sono
e ainda querer-se querido,
paz remediada,
e não há sol
é pálido reflexo.
estar morando na sala de alguém


"este não consola nunca de nuncarás. "

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

largo dois corações, número 16, apartamento 701

ser perfeito
até o primeiro defeito
e de resto
resta viver assim
fora de dentro
sambando no centro
enquanto todas as mesas ao redor observam
a noite não passa, meio bêbado
o celular que não toca, os flyers no chão
o tablado
um samba assim drogado,
perdido, sem som
plantando bananeira pra não pisar
os sapatos novos
que me apertam, querem tanto me calejar
são tão lindos, brilhantes
perfeitos
até meu primeiro defeito:
não me canso de sambar,
mas como dói...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

peter

minha poesia vulgar
cheia de nomes que ela contém
nomes, nomes que nela se ditam
por minha necessidade de ser ouvido,
pretender começar uma conversa
e tenho tanto a dizer,
mas não digo, Pedro, sou vulgar em poesia
por força da natureza.
teu sono entre remédios,
a falta de ânimo,
pose cruel, diva decadente,
nossas doses de uísque
e surpresas coincidências,
costuram na noite
músicas no repeat
e um jazz vagabundo
descalço

poema sem face

não saberia, eu,
do amor das prostitutas pelo luxo.
em plena avenida sete de setembro
às quatorze e vinte e oito
caio em pranto
exercito meus músculos por reflexo
não há crises no mudo, Carlos,
somos todos esperançosos
que uma bomba caia
depois do Atlântico
somos toda a vontade
de olhar sempre por cima do muro.
pernas balançantes
pernas
nenhuma bomba.
(aqui o sol continua a pino)
nunca poderei escrever
um poema de revolta
na beira do mar

ciranda

não és.
nem será possível
gerir corpo alheio
reger paixões, teus eixos
quando te confundo
teu silêncio, teus rejeitos,
Pigmaleão perdido pelo tempo
tua necessidade ou capricho
nem será possível
gerir meu corpo só de memória
idealismo e marcas
do meu léxico falho, confuso,
invasor
não sou, nem nasci em 1902
não suporto silêncio nos ouvidos
não suporto
falta vontade, Carlos,
e me perdoe de antemão,
não é possível ser triste assim
suspeito, te recorto
nem será possível
serei o mudo, mundano
grego, estático
meu paraíso em carrara

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

quiromancia

química
pode ser solução
tédio, maconha, uísque
quatro semanas perdido no mato
um Orixá, dois padrinhos
água benta
(pra benzer o fronte)
watch a movie without subtitles
um carinho de Saulo
um abraço de Tuyo
um beijo de Alana
carregado de santeria
voodoo cubano e colina milagrosa
pra levar embora todo mau olhado.
das velas meu escorrego e pouco caso
tropeçar nas pedras da praia
pedir desculpas pra Oxum
Oxalá e Ogum
que me protejam
que nos guardem sempre perto.
eu poderia ser gay, entenda,
homem mergulha bonito
sorri bonito
eu poderia ser solução,
mas eu só queria ter um filho
pra viajar feriado, sentir vida nova
três bikes pra a gente passear
cuidar de tuas alergias
cozinhar pros amigos no find
ler os lençois de cama
feito quiromante
usar meus docksiders
ligar pros seus pais no domingo

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

adeus

Hoje eu falarei das mentiras.
mentiras lindas, mentiras
das pérfidas víboras que Mirella matou
em poesia, em minha frente.
Juro! em minha frente, Mirella as matou
por força das ratoeiras e das traições que a vida mostrou.
melindro é a delicia das máscaras
máscaras que rodeiam tua fronte
víboras pérfidas e embotadoras,
mate-as, Mirella, por favor.

Graça maior se esbanja e transborda
da borda mais borda possível
das bordas que eu poderia ter
e ela transborda em puríssima tranquilidade
de nao ser cobra, que Mirella mata,
de nao ser nem parte da ratoeira
nao ter parte com as engrenagens
em que se enroscam e destroem em sorrisos
de perfidão, engasgadoras do próprio veneno
jogando sal na terra florida

(e que me importa a terra, perdida
entre arados e sais de outras mãos?)

olhos vêem o que lhes apetecem ver
bocas sussurram suas vontades
o que me espanta, Saulo,
é meu cansaço diante dos segredos
sobre mim mesmo que eu nem conhecia.
o que me cansa é escrever uma poesia inteira
com vontade de apaga-la
por nao ser mais uma de amor.


(Classe gramatical de melindroso: Substantivo masculino e Adjetivo
Separação das sílabas de melindroso: me-lin-dro-so
Plural de melindroso: melindrosos)

creiam, antes ser um imenso, incrivel, tempestuoso, hiperbolico melindroso que ser rasura na escrita, poeira em canto de beco, vileza escondida na sombra à espreita do bote com gosto de fel, ignoto, não ser digno nem do fim de um tex...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"botei na peneira
e você não passou"
você não passou
não passou
nem sou, eu, peneira
nem há de passar.
passo por ti, olhos de vidro
e te debates, escorregadia, líqüida;
minhas redes incapazes
são minhas, mas o rio te leva;
você não passou.
estuário infértil
criadouro das mais dores
que o tempo persiste
em guardar
por força bruta, minha vigília


(exercício de criação literária)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

thiê

pediram pra falar de ti,
pequeno.
das águas salgadas
teu rosto de sorvete
das bolhas de sabão que a ti encantam
algas presas em sua roupa
sorriso de nascer dia
dos desenhos que fizestes em minha pele
tua incapacidade de contar o tempo
da camomila em teus cachos loiros
feito chá
acalma a vida
pediram, pequeno,
mas era tanto silêncio
bolha de sabão
desenhos
pele,
eu devia ter sorrido
mas sou cansado

domingo, 6 de janeiro de 2013

dorminhoco

meio-livros cheios de receitas
bolo-pudins, flores no lençol
e as peles negras em Zanzibar;
seus Xelins.
cá na Bahia, tudo bem,
gengibre forte e chá branco antes de dormir
um corpo-templo grego ou chinês
cidade baixa
três câmeras e poucas fotos
fitinhas pro Senhor do Bonfim
me amar um pouquinho
e pensar na vida.
colares, saudade de Pernambuco
de quem vive lá, quem não há em mim
"tudo é mesmo muito grande assim
porque Deus quer"
o sol-pôr da preguiça
o por sal no mar menino
tuas caveiras e Orixás
nossa alfazema e músculos oblíquos antes de sair
ambiguidade de bocas
e hortelã