quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

girassol

almejo o sol
tão ardentemente,
escureço por rotação
o resto de minha vida.

o giro cego
e o monstro da perfeição,
não aprendi a chorar.

amaro

infeliz hora
em que ao sentir o amargo da boca,
engoli...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

tamarindo

desfizestes o azedo ruim-delicioso
do tamarindo de minha tenra infância.
amargo, azedo a falta de doces
falta de geléias, a falta.
(e um poema de amor ruim de Drummond,
prazeres remediados,
mergulhos no mar sozinho)

domingo, 27 de janeiro de 2013

cinco cortes

e para quem tem do coração
as contas em dia,
aquele abraço.
que chegue quente
feito abraço
mande uma carta
um embaraço,

apague a luz
ao sair.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

resvala

e quando não há
the perfect expression
23% de desconto
ou um café expresso
pra reafirmar
toda noite?
(dessas noites burras)
(das escolhas burras)
toda noite eu fico um pouco
assim
sem sexo aparente
-e o que é que a gente tá fazendo aqui?
falta vontade
tem faltado.
quase justifico
as contas de orixá em minha parede
por fé,
deveras, não há saída
tudo era só vontade
do meu telefone tocar em cinco minutos
preu ouvir do teu amor,
não há
saída

sábado, 19 de janeiro de 2013

amaro

de manhã cedo
espero a tarde
e anoiteço
as branduras do café quentinho,
espero junho
e uma fogueira,
Lisboa,
não amanhece há dias
tudo é cortina puxada a toa
janela de vidro fosco
onde não há
claridade.
mas é claro, Saulo,
eu nunca havia amado amaro,
lembra uns chás, ou não,
uns assobios,
felicidade súbita, salto de paraquedas
deitar no sofá depois de uma noite de quase sono
e ainda querer-se querido,
paz remediada,
e não há sol
é pálido reflexo.
estar morando na sala de alguém


"este não consola nunca de nuncarás. "

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

largo dois corações, número 16, apartamento 701

ser perfeito
até o primeiro defeito
e de resto
resta viver assim
fora de dentro
sambando no centro
enquanto todas as mesas ao redor observam
a noite não passa, meio bêbado
o celular que não toca, os flyers no chão
o tablado
um samba assim drogado,
perdido, sem som
plantando bananeira pra não pisar
os sapatos novos
que me apertam, querem tanto me calejar
são tão lindos, brilhantes
perfeitos
até meu primeiro defeito:
não me canso de sambar,
mas como dói...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

peter

minha poesia vulgar
cheia de nomes que ela contém
nomes, nomes que nela se ditam
por minha necessidade de ser ouvido,
pretender começar uma conversa
e tenho tanto a dizer,
mas não digo, Pedro, sou vulgar em poesia
por força da natureza.
teu sono entre remédios,
a falta de ânimo,
pose cruel, diva decadente,
nossas doses de uísque
e surpresas coincidências,
costuram na noite
músicas no repeat
e um jazz vagabundo
descalço

poema sem face

não saberia, eu,
do amor das prostitutas pelo luxo.
em plena avenida sete de setembro
às quatorze e vinte e oito
caio em pranto
exercito meus músculos por reflexo
não há crises no mudo, Carlos,
somos todos esperançosos
que uma bomba caia
depois do Atlântico
somos toda a vontade
de olhar sempre por cima do muro.
pernas balançantes
pernas
nenhuma bomba.
(aqui o sol continua a pino)
nunca poderei escrever
um poema de revolta
na beira do mar

ciranda

não és.
nem será possível
gerir corpo alheio
reger paixões, teus eixos
quando te confundo
teu silêncio, teus rejeitos,
Pigmaleão perdido pelo tempo
tua necessidade ou capricho
nem será possível
gerir meu corpo só de memória
idealismo e marcas
do meu léxico falho, confuso,
invasor
não sou, nem nasci em 1902
não suporto silêncio nos ouvidos
não suporto
falta vontade, Carlos,
e me perdoe de antemão,
não é possível ser triste assim
suspeito, te recorto
nem será possível
serei o mudo, mundano
grego, estático
meu paraíso em carrara

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

quiromancia

química
pode ser solução
tédio, maconha, uísque
quatro semanas perdido no mato
um Orixá, dois padrinhos
água benta
(pra benzer o fronte)
watch a movie without subtitles
um carinho de Saulo
um abraço de Tuyo
um beijo de Alana
carregado de santeria
voodoo cubano e colina milagrosa
pra levar embora todo mau olhado.
das velas meu escorrego e pouco caso
tropeçar nas pedras da praia
pedir desculpas pra Oxum
Oxalá e Ogum
que me protejam
que nos guardem sempre perto.
eu poderia ser gay, entenda,
homem mergulha bonito
sorri bonito
eu poderia ser solução,
mas eu só queria ter um filho
pra viajar feriado, sentir vida nova
três bikes pra a gente passear
cuidar de tuas alergias
cozinhar pros amigos no find
ler os lençois de cama
feito quiromante
usar meus docksiders
ligar pros seus pais no domingo

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

adeus

Hoje eu falarei das mentiras.
mentiras lindas, mentiras
das pérfidas víboras que Mirella matou
em poesia, em minha frente.
Juro! em minha frente, Mirella as matou
por força das ratoeiras e das traições que a vida mostrou.
melindro é a delicia das máscaras
máscaras que rodeiam tua fronte
víboras pérfidas e embotadoras,
mate-as, Mirella, por favor.

Graça maior se esbanja e transborda
da borda mais borda possível
das bordas que eu poderia ter
e ela transborda em puríssima tranquilidade
de nao ser cobra, que Mirella mata,
de nao ser nem parte da ratoeira
nao ter parte com as engrenagens
em que se enroscam e destroem em sorrisos
de perfidão, engasgadoras do próprio veneno
jogando sal na terra florida

(e que me importa a terra, perdida
entre arados e sais de outras mãos?)

olhos vêem o que lhes apetecem ver
bocas sussurram suas vontades
o que me espanta, Saulo,
é meu cansaço diante dos segredos
sobre mim mesmo que eu nem conhecia.
o que me cansa é escrever uma poesia inteira
com vontade de apaga-la
por nao ser mais uma de amor.


(Classe gramatical de melindroso: Substantivo masculino e Adjetivo
Separação das sílabas de melindroso: me-lin-dro-so
Plural de melindroso: melindrosos)

creiam, antes ser um imenso, incrivel, tempestuoso, hiperbolico melindroso que ser rasura na escrita, poeira em canto de beco, vileza escondida na sombra à espreita do bote com gosto de fel, ignoto, não ser digno nem do fim de um tex...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"botei na peneira
e você não passou"
você não passou
não passou
nem sou, eu, peneira
nem há de passar.
passo por ti, olhos de vidro
e te debates, escorregadia, líqüida;
minhas redes incapazes
são minhas, mas o rio te leva;
você não passou.
estuário infértil
criadouro das mais dores
que o tempo persiste
em guardar
por força bruta, minha vigília


(exercício de criação literária)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

thiê

pediram pra falar de ti,
pequeno.
das águas salgadas
teu rosto de sorvete
das bolhas de sabão que a ti encantam
algas presas em sua roupa
sorriso de nascer dia
dos desenhos que fizestes em minha pele
tua incapacidade de contar o tempo
da camomila em teus cachos loiros
feito chá
acalma a vida
pediram, pequeno,
mas era tanto silêncio
bolha de sabão
desenhos
pele,
eu devia ter sorrido
mas sou cansado

domingo, 6 de janeiro de 2013

dorminhoco

meio-livros cheios de receitas
bolo-pudins, flores no lençol
e as peles negras em Zanzibar;
seus Xelins.
cá na Bahia, tudo bem,
gengibre forte e chá branco antes de dormir
um corpo-templo grego ou chinês
cidade baixa
três câmeras e poucas fotos
fitinhas pro Senhor do Bonfim
me amar um pouquinho
e pensar na vida.
colares, saudade de Pernambuco
de quem vive lá, quem não há em mim
"tudo é mesmo muito grande assim
porque Deus quer"
o sol-pôr da preguiça
o por sal no mar menino
tuas caveiras e Orixás
nossa alfazema e músculos oblíquos antes de sair
ambiguidade de bocas
e hortelã