terça-feira, 26 de março de 2013

amor...

amor, amor,
não vale a pena
bater asa
pra fora de casa
quando a noite cai.
lá no quintal
tanque, pedra e varal
das penas que pendurou,
tuas roupas,
essas muito poucas,
aquele meu vestido;
pousam no sofá
esperando passar
toda a sua dor.

quinta-feira, 21 de março de 2013

absentee

a superfície laminada reflete a luz de cima, cima de mim, não é a minha luz, ou a de qualquer coisa que me rodeie, só uma luz acima. o almoço desceu atravessado, talvez devesse só ter bebido, minha ridícula alergia à melancia, nem faz tanto sentido assim, azia e refluxo, inércia, a cadeira nem é confortável, mas não consigo levantar. passam-se dias de não movimento, nem os dias passam, parados, eu e eles.
é triste a situação da mariposa, é a quinta que vejo cair aqui perto por chegar muito próxima da luz. estúpidas bichinhas tão humanas. não me levanto, assopro as asas de uma delas pra longe do meu alcance, não quero sequer ter parte em qualquer parte desses desejos de imensidão. mesa vagabunda com lamina clarinha, cadeira opaca, ladrilhos floridos, armário pago no boleto, nem um real a menos, meu chá esfria lá atrás. morro por dentro.
falta talento pra escrever um bilhete suicida, falta talento pra falar da vida. tatuarei uma mariposa um dia, vou me levantar daqui e escrever na parede "MARIPOSA", vestir uma camisa cheia delas, até minha cadelinha vai chamar mariposa, essas coisinhas sem graça, sem talento pra borboleta, sem nem uma cor que preste, cabeludinhas, estranhas, noturnas, estúpidas e que invariavelmente tem a coragem de se queimar na luz dos outros, sabe Deus, porque, na luz dos outros, onde a luz cega, mata, enche de vida o que era só uma mesa vagabunda, um chá frio. não nasci pra borboleta.

domingo, 17 de março de 2013

domingo

qualquer domingo desse
lhe chamo de surpresa
pra comer comigo
comidinha requentada,
tomar uma cerveja
ouvir Nelson Gonçalves
pisar no chão com a segurança nos pés
dos anos sessenta,
se perder na tarde
enquanto nada é tarde
e da janela
meio jardim
meio afim.

domingo, 10 de março de 2013

manhã

eu sei, bê, decepcionei.
a cidade engole tudo
daqui de cima, são quinze andares,
eu vejo o mar
eu vejo horizontes móveis
eu vejo móveis voarem altura abaixo,
sou tão cego...

Saulo me chamou pra escrever um livro
sobre delicadeza,
que sei eu?
anfetaminado
sinto desejos diante o espelho
reflito os traços no meu corpo
o porto da barra
continua ali

só,
bato minhas ondas na praia
sem sequer banhista desnudo
ou vestido que estivesse
passa um barco
e não sou eu.

revolvo correntes
por dentro de mim
encharco as areias
por pura
e completa
vaidade,
netuno de um copo,
imenso, só eu vejo.

falta verso que faça entender o universo
falta verso
e sobra verão
soberba
minha barba
muitas bocas
poucas palavras

sábado, 9 de março de 2013

ventilador

mal ventila, mal enxergo,
brinco de bem-me-quer nas luzes que passam
é nove de março, verão e calor a pino
sem águas de despedida,
na meia noite que não passa,
eu e milhões de outros por aí
estamos só.

não há sequer
um telefone tocando
casal trepando
(minhas mãos contam luzes)
(perco a conta, bem ou mal)
desfiz-me das roupas, o corpo ficou.

mandei carta sem destino
nem data de chegar
nem sequer paguei as taxas,
qualquer dia eu descubro
onde é que foi parar
minha poesia

meu pieguismo
é culpa

meu alcoolismo
é só mais um alcoolismo
mais uma garrafa
e a minha incompetência até em ficar bêbado
resignado

quinta-feira, 7 de março de 2013

babes

eu preciso de abraços
hoje
de seus braços
imensos tentáculos de monstro
me abraçam e sou monstro, por fim.
por via de fatos
meus amigos são gays
se drogam
e dançam all night long
são meus
"I'm doing everything right, why nothing happens, bitch?"
cocorosie, bon iver, vinho bom, banheira e uno más
meus soltos tentáculos
e meus amores, todos eles
"I'm a motherfucking monster"
eu sempre cozinho
sirvo
e lavo,
corro,
vejo,
abraço,
sofro homofobias, dessincronias, tapa na cara,
my bitches,
(champanhe, uisque, putas de luxo e apego inseguro)
meu sorriso
é muito maior
com todos eles

sábado, 2 de março de 2013

salvo

eu estava pronto
pra viver alcoolizado,
em outro continente,
assim, meio descontente
sim e não do seu lado,

ou o que era o lado?
oposto do bom gosto
perfeito senso estético
fraqueza de espirito
espelho sem rosto
desbrilho enfeitado
caveiras
vaidade da alma
que não cabe na palma
da mão que eu perdi.

faz dias que é assim mesmo,
más impressões e café frio
tem em toda mesa.

ainda bebo, entenda,
ou não entenda, tanto faz,
fico assim meio blasée
quando é tarde
pra qualquer
reação;
é, e eu perdi a mão,
descansei de segurar garrafas,
joguei as roupas fora,
a pintura de Calazans
rezei pra muito Orixá,
o amor
virá
a foguete.