quinta-feira, 21 de março de 2013

absentee

a superfície laminada reflete a luz de cima, cima de mim, não é a minha luz, ou a de qualquer coisa que me rodeie, só uma luz acima. o almoço desceu atravessado, talvez devesse só ter bebido, minha ridícula alergia à melancia, nem faz tanto sentido assim, azia e refluxo, inércia, a cadeira nem é confortável, mas não consigo levantar. passam-se dias de não movimento, nem os dias passam, parados, eu e eles.
é triste a situação da mariposa, é a quinta que vejo cair aqui perto por chegar muito próxima da luz. estúpidas bichinhas tão humanas. não me levanto, assopro as asas de uma delas pra longe do meu alcance, não quero sequer ter parte em qualquer parte desses desejos de imensidão. mesa vagabunda com lamina clarinha, cadeira opaca, ladrilhos floridos, armário pago no boleto, nem um real a menos, meu chá esfria lá atrás. morro por dentro.
falta talento pra escrever um bilhete suicida, falta talento pra falar da vida. tatuarei uma mariposa um dia, vou me levantar daqui e escrever na parede "MARIPOSA", vestir uma camisa cheia delas, até minha cadelinha vai chamar mariposa, essas coisinhas sem graça, sem talento pra borboleta, sem nem uma cor que preste, cabeludinhas, estranhas, noturnas, estúpidas e que invariavelmente tem a coragem de se queimar na luz dos outros, sabe Deus, porque, na luz dos outros, onde a luz cega, mata, enche de vida o que era só uma mesa vagabunda, um chá frio. não nasci pra borboleta.

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