sábado, 27 de abril de 2013

paladar

às bocas despreparadas:
após primeiro amargo
amor perde gosto
nem parece amor
nunca tão doce;
resta língua, anestesia,
melhor buscar
outros sentidos
pra o mundo.

todavia

não sei falar de amor. não sei falar de futuro, vida à dois, falar de sorte, falar de morte, da maioria de meus pouquíssimos e bons amigos. não sei falar da minha vontade de ir embora, de cafuné quando fico doente, aprender mais uma língua, ser um cozinheiro gourmet e sempre inventar receitas. não sei. não sei sequer se sou boa pessoa, namorado que preste, filho decente, amigo presente, gente que faz falta. não sei falar poesia, poesia dos outros é sempre melhor, não recito, prefiro receita, queria tanto uma receita, escrever ou cozinhar às cegas não dá. não sei falar, mas que mal há?
poesia
da rotina
é silencio

quinta-feira, 25 de abril de 2013

candy

I want the lights of Paris.
- tenho querido, apaixonado por uma fantasia, um jazz perdido, tenho realmente querido muito um pouco mais de luz.
-tem chovido bastante, tempo de limpar os calçados, cortar os cabelos, ouvir mais música, visitar os amigos e passar tardes sem muitos propósitos.
- L-u-z! please, eu ando meio cansado até do meu português bem falado, tão pouco me serve. tudo começou quando faltou luz no meu quarto há alguns anos atrás, de lá pra cá tudo desandou, venho tropeçando, esperando já ter nadado o atlântico sem conseguir mover um pedaço de minhas vontades. quero as luzes de Paris aqui.
-quero Lays, Mariele e Igor que foram embora. quero Ramon, Iuri e tantos outros que estão por ir, quero um pouco de paz. a paz de sentar em uma casa de mel e ver o sol nascer, iluminar as compotas e tudo caramelizar na minha vida, cansei do meio-amargo, do meio amargo, do azedo, luz e doce, s'il vous plaît.
-um filme cretino, uma noite mal dormida de conchinha, desconforto de braços dormentes e cabelo na cara, um cigarro pra apagar qualquer idéia, tenho querido tanto e tanto quanto tenho querido, vejo brotar no seu jardim margaridas.
-um pouco mais de Saulo, Tuyu, Bê; sinto saudades, mandarei cartas quando der vontade, tem chovido, feito dias de mandar carta e acender vela, dias de não pensar nela, essa falta das coisas pequenas que me dá todo dia.
-é bom ver qualquer dia ser mais um, fancy clothes, demi-sec brut, champagne, maconha e meia noite. tem faltado luz, afinal. tem cortado o doce.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Barra

dordecabeça,
não fode,
me deixa.

as luzes baixas, postes, ruas iluminadas no meio da noite, os prédios dormem, quase se deitam uns nos outros, a cidade cobre, a rua brilha, o décimo quinto andar observa tudo isso como um por do sol. meu apartamento finge dormir, todo apagado, eu continuo na janela, dor de cabeça, tylenol, água, banho, calor, sem roupa e o uísque da desistência, inútil imaginar o sono da cidade, dói, eu mesmo não durmo.
subi a ladeira apanhando, Bê, acredite. "ah, bem melhor seria poder viver em paz, sem ter que sofrer, sem ter que chorar, sem ter que querer, sem ter que se dar" e Powell vem sambando de fininho, sorriso no rosto, não sorrio, nem ele no fundo, é tudo muito samba de morro, e a gente vai assim sorrindomorrendo um pouquinho, subindo bebinho, com cara de descendo, sem saber ao certo em que pedaço do espaço a gente tem lugar pra pisar mais forte um pouco, fingir que é gente, que nunca na vida inteira doeu o coração.
dorme a cidade toda, aqui, dorme tanta coisa em mim, e quem acorda?
não há remédio pra dor de coração ou tédio.

sábado, 13 de abril de 2013

london

era
eu esse
pedaço
era
pouco
muito pouco
espaço
ao passo
que tudo
passa
acho
graça
acho
que só
uma taça
de champagne
um livro de Adélia
amor perdido
um tiro na mesa
e nenhuma rima
nenhuma fina
fumaça
passa