terça-feira, 28 de maio de 2013

wishlist

olha, moça, é só compromisso, aquela coisa bonita de ser feliz pra sempre...
simples, nada muito complicado. ter a certeza de que se ama, viver num apartamento lindinho, decorado por quatro mãos, desde o tapete da sala ao espelho do banheiro, dividir as contas, as chaves, alguns pijamas, talvez, e quem sabe ver os cabelos ficarem brancos e fazer piada disso. criar um cachorro troncudo e meio lerdinho, poder levar pra praia no domingo bem cedo, sair pouco, reunir muito os amigos, cozinhar delicias, beber e não se importar com a bagunça na mesa de centro, um beijo de bom dia todo santo dia. sair pra trabalhar querendo trepar de novo de manhã, voltar mais cedo do trabalho e encontrar tudo bagunçado, ela na sala pintando algo, fotografando da janela pra fora, escrevendo no sofá, bagunçada, cabelo bagunçado, sorriso imenso. acordar e não sentir o peso na cama, ter o dia só pra pensar nela de vez em quando, araras de roupa, visitar os pais no feriado, viajar e brigar pelas malas, esperar da vida sempre um pouco mais de manhãs bonitas, esperar um filho, a encomenda do exterior, carta dos amigos, amigos viajantes, tomar um banho de mar e molhar todas as nossas tatuagens juntas, deitar a pele queimada de sol no lençol branco.
era só silêncio, se entender em silêncio, se entender nas escolhas, músicas e filmes escolhidos, ir no cinema e dividir a pipoca, receber elogios sem merecer, ter a paz de ter alguém.
"nasci pra amar e pra morrer", ouvir meu jazz, vestir boas roupas, beber bom vinho, bom uísque, ter uma mão pra segurar...

segunda-feira, 27 de maio de 2013

doce

me trouxeste
taça e vinho
ferro de marcar e brasa
veia adentro.
e de tanto buscar consolo
nas tuas coxas
moças, 
farmácia ou botequim,
onde eu crio os monstros
-meus amados-
fiquei por lá.
bem nascido
nem criado
bem perdido,
eu e eles todos, eles muitos
horizontalizados monstros;
nos sustentam,
nossa necessidade de viver no escuro
olhar de longe
caçar pensamentos em curta-metragens
dormir ou apagar,
nossa necessidade
de viver chapado,
não há consolo em tuas coxas
nenhuma outra
aninhará

sexo

teus dedos
cacos de vidro
vem brilhando no ar
prismando olhos
retina
gloriosa
retina
e me rasgam
de perto,
estranha.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

sinus amoris

falta um amor pra declarar
tudo por fazer,
deixo sempre
quase tudo a perder
deixo vazar os olhos
na beira dos cílios dela
as mil direções
dos quadros
quadrados
molduras outras
de minha sala
assimetria
e maré cheia
escoa de mim;
rostos que não conheço
na beira dos cílios dela,
não conheço.

caetano falta
tudo por fazer,
e terminar pra que?
a vida é praia
sobe e desce maré
para delírio no convés
ao invés
de ser tudo Caê
é sempre tudo
tudo em minha vida
por fazer.

precipício ela, era ela
era pouco
era vela.
ela panda,
branda cor
tempo, dor
demais dela
ficou.

tom pastel
Caê, coca-cola
e a perdida impressão de estar sempre errado

terça-feira, 21 de maio de 2013

pão de trigo

hoje é dia de acender vela
na casa grande.
nao fala
sorri pouco, nao queima os dedos no fogo
cozinha
na cozinha de silêncio
e aroma.

no quintal de acender vela
aprendi a ser pequeno
a vida toda.

agradecer o pai
que ensina a ser bom
ser bem
bem maior,
cozinha com silêncio.

leva tempo pra aprender 
pra engolir
silêncio nas coisas,
tudo plange 
tudo bege
na cozinha
e a noite espera
a noite toda
olhando pro céu
de onde sai o dia
e o cheiro da massa
pronta de véspera.

viver é vesperar
silente
na beira do fogo
do cheiro ir pro ar
e acender vela
ascender...

domingo, 12 de maio de 2013

correvento

tuas varandas
arejadeiras 
de cordas em bordas.

- a gente não vai contra o vento,
acostuma...
redizia assobiado
tilintando partículas
de nós
o mensageiro,
pendurado nas vigas de Ipê.


sábado, 11 de maio de 2013

susto

       "tudo claro
ainda não era o dia
           era apenas o raio"

Leminski, P.
 

ver por cima do muro,
do tempo:
o amanhã é nada.
é tudo agora
e a gente vai assim
fazendo minutos
tecendo segundos
cozinhando as horas
e então
tudo passou.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Carta pra Bê

(já que ela descaradamente não me dá a chance de enviar por correio) <-- (isso é um subtitulo, só não quis estragar o post)

Olhe, moça, bem vou lhe dizer que uma garrafa de vinho era tudo que eu precisava, mas eu mentiria...
Desde pequeno eu admirava um livro bonito e grande que minha mãe me dava pra ler, falava ele das estações do ano, eu admirava e lia quase sempre. Outono me persegue onde quer que eu vá, sou de maio do hemisfério sul, nasci numa noite meio chuvosa e com muito vento soprando nas amendoeiras de um bairro central, venta forte dentro de mim até hoje. Não creio que sejamos todos determinados por nascimento, mas convenhamos: sou taurino e outonal, meu ascendente e minha lua sao de ar, não posso fazer nada pra mudar... não quero fazer nada pra mudar.
Hoje depois de muito tempo sai de casa e fui pra bem longe, creio que tenho tendências a cinegrafista, fui e voltei fazendo filmes com as pessoas que passavam, meus passos, muros grafitados, pontos de onibus cheios, depois vazios, tudo passava nas minhas amêndoas oculares, nada muito lindo, tudo muito tudo, quase nada eu.
Escrevi sobre muita mulher, poucos amigos, alguns parentes, sobre quem eu queria ser. Escrevi bêbado, drogado, sóbrio, doente e são, nunca consegui parar de escrever, nunca mesmo. Essa semana fui surpreendido por uma foto, tatuaram parte de uma poesia minha, e me dei conta que eu estou na pele de alguém. Eu estou na pele de alguém. Não alguém indefinido, é mais que qualquer um, mais que qualquer uma, e eu estou na sua pele. Engraçado como só uma tatuagem, metafora de chico, metafora de tantos outros na vida, me fez entender que eu posso estar em outra pessoa sem necessariamente saber o que, porque ou como me marquei. Somos mais que vento, somos ferro em brasa açoitando o mundo com palavras doces.
Olhe, moça, eu cansei de esperar suas cartas, não com mágoa, mas com ansiedade, envio por via deste único meio minha cartinha. Eu queria ter uma garrafa e uma rolha, um oceano e muito mais fé no destino, mas espero que isso assim, aquariano tecnológico como meu ascendente, lhe cause boa impressão. Seus escritos vem sempre em boa hora, nesse balanço dos minutos, que seja assim em retorno e gratidão.

Thiê

P.S. - sei que tenho sido malcriado com o amor, mas tem sido difícil lidar, eu estive enganado todo esse tempo, aqui vai uma revelação: existe gente realmente ruim nesse mundo. "=O" (o rostinho foi só pra enfatizar meu espanto).