quarta-feira, 8 de maio de 2013

Carta pra Bê

(já que ela descaradamente não me dá a chance de enviar por correio) <-- (isso é um subtitulo, só não quis estragar o post)

Olhe, moça, bem vou lhe dizer que uma garrafa de vinho era tudo que eu precisava, mas eu mentiria...
Desde pequeno eu admirava um livro bonito e grande que minha mãe me dava pra ler, falava ele das estações do ano, eu admirava e lia quase sempre. Outono me persegue onde quer que eu vá, sou de maio do hemisfério sul, nasci numa noite meio chuvosa e com muito vento soprando nas amendoeiras de um bairro central, venta forte dentro de mim até hoje. Não creio que sejamos todos determinados por nascimento, mas convenhamos: sou taurino e outonal, meu ascendente e minha lua sao de ar, não posso fazer nada pra mudar... não quero fazer nada pra mudar.
Hoje depois de muito tempo sai de casa e fui pra bem longe, creio que tenho tendências a cinegrafista, fui e voltei fazendo filmes com as pessoas que passavam, meus passos, muros grafitados, pontos de onibus cheios, depois vazios, tudo passava nas minhas amêndoas oculares, nada muito lindo, tudo muito tudo, quase nada eu.
Escrevi sobre muita mulher, poucos amigos, alguns parentes, sobre quem eu queria ser. Escrevi bêbado, drogado, sóbrio, doente e são, nunca consegui parar de escrever, nunca mesmo. Essa semana fui surpreendido por uma foto, tatuaram parte de uma poesia minha, e me dei conta que eu estou na pele de alguém. Eu estou na pele de alguém. Não alguém indefinido, é mais que qualquer um, mais que qualquer uma, e eu estou na sua pele. Engraçado como só uma tatuagem, metafora de chico, metafora de tantos outros na vida, me fez entender que eu posso estar em outra pessoa sem necessariamente saber o que, porque ou como me marquei. Somos mais que vento, somos ferro em brasa açoitando o mundo com palavras doces.
Olhe, moça, eu cansei de esperar suas cartas, não com mágoa, mas com ansiedade, envio por via deste único meio minha cartinha. Eu queria ter uma garrafa e uma rolha, um oceano e muito mais fé no destino, mas espero que isso assim, aquariano tecnológico como meu ascendente, lhe cause boa impressão. Seus escritos vem sempre em boa hora, nesse balanço dos minutos, que seja assim em retorno e gratidão.

Thiê

P.S. - sei que tenho sido malcriado com o amor, mas tem sido difícil lidar, eu estive enganado todo esse tempo, aqui vai uma revelação: existe gente realmente ruim nesse mundo. "=O" (o rostinho foi só pra enfatizar meu espanto).

Um comentário:

Be Lins disse...

Thiê!

Sua carta chegou.
Não foi o carteiro quem a trouxe com suas mãos cheias de palavras escritas, mas ela chegou, e foi recebida com toda a cercania que uma carta merece:
lida, relida, apreciada e compreendida nos limites do queria saber mais.
Se sou descarada, amore, não me leve a mal, nem acredite tanto na ruindade que descreves perceber no final, não sei oque te causa essa dor, mas te asseguro,
_ existe mais,
sobretudo para pessoas como você,
que desfrutam intimidade com as palavras, que conseguem emoção poética vendo um muro, uma taça de vinho tinto, o rosto de uma menina, os devaneios de uma amiga distante que também traz um mundo dentro de si, e que partilha na medida do que lhe é possível, embora mais devesse sempre ser o caminho. E o caminho se faz.

Vou te dizer uma coisa de tom piegas, mas é sempre da casa das simplicidades que a gente encontra as ervas para todo mal:
_ tenha fé, Thiê,
porque pra escrever felicidade, a gente tem que, necessariamente, passar por ela.

Com todo carinho do mundo,
Be


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